O lugar em que se nasceu é algo mais que um território geograficamente determinado. É Pátria. Portanto, ninho, abrigo, família ampliada em vastidões sem conta. E Pátria é mãe bondosa e protetora. Quando dela nos afastamos, a separação contém a dor de raízes arrancadas. E o retorno ao seu aconchego significa o reencontro com as coisas mais queridas, mais nossas, mais íntimas.
Pátria pode ser uma paisagem, um jeito de ser, um modo de conversar na inteligível linguagem que se aprendeu desde a mais tenra infância. Pode e deve ser orgulho justificado como o dos filhos pela mãe. E nunca exclui o sentimento de estar irmanado com todos aqueles que, nascidos sob o mesmo ‘‘lábaro estrelado’’, são embalados no ‘‘berço esplêndido’’ pela ‘‘mãe gentil’’. Além de tudo, Pátria é mais do que eu. Somos nós.
Pátria é Brasil. Doce Pátria-mãe com longa e verde cabeleira de perfumadas matas, de áureas riquezas abrigadas em suas entranhas, de profundos olhos azul-marítimos a perscrutar o porvir dos seus filhos. Sua grandeza é imensa. Sua generosidade, sem limites. Sua beleza, sublime. E nos seus longos caminhos ninguém se perde porque sempre se pisa no inconfundível solo pátrio.
Estado não é Pátria. É pai. Estado também é povo e território, perfazendo a Nação, mas sobretudo é governo. No Estado ficam as necessárias leis e a Justiça. Na Pátria estão as imprescindíveis leis justas. Por isso ele é pai e ela é mãe. Mas nós que somos gestados pela Pátria e não pelo Estado, o que fazemos por ela? Por que mentimos ao lhe dizer ‘‘verás que um filho teu não foge à luta’’? Por que só lembramos dela quando em terras longínquas compreendemos finalmente a palavra saudade, tão nossa e tão única? Ah! Pátria nossa! O que fazemos por ela, ou o que deixamos que nos façam em nome dela? Quantas vezes somos filhos que apenas a criticam? Chorões e exigentes, estamos sempre prontos a pedir, sem nada lhe dar em troca.
Ás vezes até elogiamos a Pátria chamada Brasil. Isso se dá quando tudo vai bem, quando os planos do pai Estado funcionam. Mas basta a necessidade de um pouco de sacrifício para que se cubra a Pátria de vilipêndios. Na hora da necessidade nós a abandonamos e nos tornamos órfãos equivocados da amargura, exatamente como filhos ingratos.
Entretanto, há várias maneiras de amar e servir à Pátria. Uma delas é através do voto. Votando corretamente, asseguramos não só nosso futuro como o das próximas gerações, pois outorgamos ao pai Estado os timoneiros capazes de conduzir o barco aos portos seguros da prosperidade. Torna-se assim o ato de votar um ritual praticamente sagrado, que deveria ser iluminado pelas luzes de nossa consciência e de nosso discernimento.
O voto bem dado transparece depois nas ações dos eleitos. Ações que visam o benefício da Nação no seu conjunto e não interesses particulares. Isso pode ser exemplificado neste momento pelo esforço do deputado federal e líder do governo, Luiz Carlos Hauly. A Lei Hauly, que tramitou sete anos no Congresso, foi sancionada no dia 5 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Esta lei permitirá aos governadores e prefeitos a necessária capitalização de recursos para a criação de fundos de pensão, originando-se tais recursos do saldo devedor que o INSS tem com os Estados e municípios. O saldo é retroativo a aposentadorias pagas pelos governos estaduais e municipais ao INSS desde 1988, e significa alívio e socorro financeiro a estas entidades da Federação.
Portanto, o trabalho do deputado Luiz Carlos Hauly merece ser louvado como um bom serviço prestado à Pátria, pois o intento deste parlamentar traduz a busca do fim último da política, que no sentido aristotélico é o bem comum.
Quanto a nós, cidadãos brasileiros, compete a cobrança do bom aproveitamento da Lei Hauly por parte de governadores e prefeitos. Sabemos por experiência própria que governos costumam ser perdulários, e que a corrupção permeia nossas instituições e nossa sociedade de forma acentuada. Também conhecemos a ganância desmedida daqueles que, eleitos para governar, promovem o desgoverno, e exemplo do que se afirma se evidencia na atitude de governadores como os do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Estes, que não fizeram esforço algum, já estão projetando através da Lei Hauly quantias impossíveis de serem depositadas nos seus cofres; aliás, provavelmente para nada. Ou melhor, para custear os privilégios de suas oligarquias com dinheiro público, e depois pedir mais socorro ao governo federal para suas previdências falidas por má administração.
Só Itamar Franco já concebeu, através da Lei Hauly, um ressarcimento de R$ 17 bilhões. Estimativa, como se vê, do tamanho dos seus ressentimentos com relação ao presidente da República. ‘‘Se fosse projetada para todo o País’’, conforme editorial de ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de ontem, ‘‘deixaria a Previdência com uma dívida equivalente à metade do PIB’’. Aliás, políticos como Itamar Franco, Leonel Brizola, Luiz Inácio Lula da Silva, só para citar uns poucos, parecem aqueles bichos que dão uma dúzia de voltas sobre si mesmos para sentar no mesmo lugar.
Acontece que países têm rumo certo a seguir se quiserem alcançar o desenvolvimento. Tem caminhos a ser construídos por seus governantes e cidadãos, sendo que estes últimos não devem depender do pai Estado como se fossem eternas crianças, mas estabelecer com o governo relações adultas que implicam em noções precisas de direitos e deveres.
Já com relação à Pátria, poderemos nos deixar embalar no seu regaço. Ela será sempre nosso refúgio, nossa proteção, nosso consolo. Afinal, Pátria é mãe. Mas porque o é, se de alguma maneira for ultrajada, que nenhum de seus filhos fuja à luta para protegê-la.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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