Aprendi com um velho mestre de Física Teórica a nunca menosprezar duas coisas: macumba e projeção matemática. Não acredito em macumba, mas quando encontro uma na rua, penso ser sensato não chutar a penosa ou a cachaça. Pelo mesmo motivo, sensatez, guardo um tratamento respeitoso para com as projeções e conclusões delas decorrentes. Ambas, tanto a macumba quanto as projeções matemáticas, guardam em si um certo determinismo, um futuro previsto e às vezes não desejado.
Como macumba em portão de cemitério, a notícia apareceu nos matutinos de sábado. Dois dos mais conceituados bancos do mundo, JP Morgan e Credit Suisse First Boston, fizeram uma projeção da taxa de desemprego em 19 países emergentes. Os ventos da recessão mundial devem carregar alguns milhões de postos de trabalho em 99. A taxa de desemprego média no Brasil deverá chegar a 10,5%, na Argentina 15%, Rússia 13%, Indonésia 11% e Coréia do Sul 11%. Vejam bem que estes são percentuais médios, ou seja, podemos ter picos maiores ainda. Em janeiro de 82, em plena década perdida, o general Figueiredo nos presenteou com o recorde na taxa de desemprego: 9,8%, medida pelo IBGE. O povão não aguentou e começou a saquear supermercados.
Mas, ao falar do antigo mestre de Física lembrei-me de outro, ou melhor, de outra. Estudei com católicos, num tempo em que os professores tinham a permissão de castigar e bater nos alunos e que se fazia a Primeira Comunhão logo na primeira série, 1970. Colégio Santo Inácio, em Maringá. A classe inteira num silêncio de tumbas ouvindo a freira explicar que deveríamos confessar nossos pecados antes de comungar. Eu - como de resto a turma toda - me esforçava para descobrir quais os pecados possíveis aos 7 anos de idade. Não me contive e perguntei à irmã o que era e como surgira o pecado. O silêncio na sala ficou ainda maior. À medida que o tempo passava eu já me conformava com a possível reguada por ter feito a pergunta que todo mundo queria fazer e não fez.
De repente, a freira, como se estivesse saindo de um transe, tentou desfazer o mistério. Ela contou a história da expulsão do homem do Paraíso. Fiquei encantado pela descrição do Éden - estava ali um lugar par ser visitado. A freira prosseguiu na história, disse que Eva, enganada por uma cobra, havia induzido Adão a comer o fruto de uma árvore proibida por Deus. (Logo lembrei do pé de goiaba da vizinha, que eu costumava visitar depois de chegar da aula - que alívio, estava ali um bom pecado para ser confessado!). Evidentemente que a explicação da freira foi bem rasa. Religiosa e pudica, a irmã suprimiu detalhes do pecado original, a parte da sacanagem mesmo, mas contou que Adão e Eva foram expulsos do Éden e condenados, eles e seus descendentes, a ganhar a vida com o suor de seus rostos.
Portanto, sob o ponto de vista puramente religioso, trabalhar é um castigo por nossa desobediência a Deus. Esta lógica mostra que ao trabalharmos expiamos nossas culpas e ficamos quites com a ira divina. Mas neste final de século, anos medonhos em que os valores morais estão invertidos, parece que o castigo é ficar sem a oportunidade de trabalhar.
Fico extasiado com a bondade e o desinteresse de tão nobres bancos internacionais que, numa projeção matemática, lembram-nos de nossa miséria e falam para o resto do mundo que aqui não será um local seguro para se investir dinheiro. E penalizado, penso na tristeza da minha antiga mestra ao saber que boa parte dos brasileiros não vai poder cumprir a sina terrível determinada pelos céus de se suar o rosto por causa de um fruto roubado a uma árvore.
Nunca mais roubei goiaba da vizinha.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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