A luz que se apaga
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2002
Rodrigo Souza Grota 
O filme B que foi o desastroso governo Lerner chega à sua última cena como um disaster movie: o fim do Cine Ouro Verde. Inaugurado em 24 de dezembro de 1952, com ''Meu Coração Canta'', de Walter Lang, o Ouro Verde é o símbolo cultural de tudo que se refere à cinema em Londrina. Nos anos 50, palco para as su© ntuosas produções de Hollywood, este local chegou a atrair cerca de 7 mil pagantes por dia. Nos anos 70, ao ser adquirido pelo governo do Estado, o Ouro Verde tornou-se palco da produção anti-comercial, o que motivou as lendárias ''sessões da meia-noite'' coordenadas pelo crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge, e sempre com um bom público.
Mesmo não sendo o primeiro cinema de Londrina (foram inauguradas sete salas entre os anos 30 e 40), um cinema que compreende toda esta trajetória os grandes clássicos dos estúdios americanos até as produções mais alternativas , em si, preserva uma vitalidade histórica irrefutável. Mas o Cine Ouro Verde tem uma importância ainda maior: como único cinema em Londrina disposto a exibir filmes não-convencionais, o anfiteatro da Rua Maranhão exerceu um papel essencial na formação do cinéfilo londrinense: o despertar para um novo olhar, um nova estética, um mundo diverso que apenas os bons filmes conseguem criar. Quantos pés-vermelhos não descobriram sua paixão pelo cinema ao se emocionarem em uma sessão no Ouro Verde? Quantos artistas terão surgido ali? Quantos críticos?
Enfim, o fato de Lerner ter preferido comprar um equipamento multimídia, típico de convenções de empresas, anula a função primordial do Ouro Verde: fomentar novas platéias para um cinema não-industrial. Cinema não se descobre em vídeo ou DVD: é necessária a magia da sala escura, a grande tela, o contato com outros espectadores, a qualidade pictórica da película em 35 mm, o barulho do projetor que move os sonhos dos espectadores.
Existiriam fãs de Bergman, Kieslowski, Truffaut, Godard e Orson Welles em Londrina se não houvesse o Ouro Verde? Os avós londrinenses contariam a seus netos o que era ver ''Ben-Hur'' em uma sala com 1,5 mil pessoas vibrando a cada lance? Essas experiências estéticas e emotivas fariam parte da vida da cidade sem este cinema? Certamente não.
O que se pede agora à nova gestão da Secretaria de Cultura do Paraná é a restauração dos antigos projetores, da antiga tela, e a reativação do mais belo cinema do interior do Brasil. A intenção do programador do Ouro Verde era reinaugurar o cinema com a estréia nacional de ''Gaijin 2'', de Tizuka Yamasaki, produção rodada em Londrina. Este sonho ainda é possível. Para que a luz não se apague definitivamente, basta uma decisão da nova secretária de cultura do Paraná, Vera Mussi a de devolver aos londrinenses a possibilidade de voltar a sonhar ali no anfiteatro da Rua Maranhão. Sonhos que se mantiveram por 50 anos, e aos quais Lerner quis dar um basta.
RODRIGO SOUZA GROTA é jornalista e crítico de cinema em Londrina.


