A luz e o túnelDigam o que disserem, só não acusem Fernando Henrique de ser populista. O presidente poderia estar fazendo política à moda antiga, ‘‘adulando os pobres e bajulando os ricos’’; no entanto, ele tem se mantido fiel aos princípios de governo cujas propostas foram apresentadas ao eleitorado em outubro de 98. A rigor, trata-se da continuação do projeto que foi a espinha dorsal da campanha vitoriosa de 94: a reforma do Estado (reforma fiscal, previdenciária, administrativa e privatizações). Alguns pensavam que o carro-chefe da plataforma era a mão estendida, com os cinco dedos - educação, emprego, saúde, segurança e agricultura - mas o principal era mesmo o Capítulo V do ‘‘Mãos à obra, Brasil’’. Reformar o Estado para fazer com que a racionalidade administrativa, o equilíbrio das contas, o enxugamento da máquina, permitissem ao governo federal administrar as tais cinco metas fundamentais.
Pois essa proposta, escolhida pelo povo em 94, não conseguiu ser concretizada senão pela metade, na meia-sola, no arremedo. As reformas que foram mais ou menos bem-sucedidas, a administrativa e a das privatizações, estão-se completando só agora; há muito o que fazer. Entre as mais graves, a reforma da Previdência Social, sangria desatada dos cofres públicos, ficou na base do curativo tópico. As veias continuam abertas. Por quê? Por causa da impopularíssima discussão a respeito da idade mínima para o brasileiro se aposentar. Se a situação acha que isso é um bem, e a oposição que é um mal, ambas concordam que hoje, a quase um ano das próximas eleições (ou seja, quase ‘‘véspera’’), aprovar leis que desagradam ao imediatismo do cidadão poderia significar um desastre nas urnas. Mas, e o Brasil? Ora, o Brasil...
A reforma fiscal, que implica na modificação do atual sistema tributário nacional, atualmente na baila das maiores críticas, esteve em pauta desde sempre. Nunca houve uma época em que a sociedade estivesse feliz com os tributos a pagar - aliás, nunca houve sociedade alguma, no mundo, que ficasse contente com impostos! Porém, o caso brasileiro é de urgência urgentíssima. É urgente a criação de novos empregos - todavia, o custo social desses empregos desanima qualquer empresário. E o produto final levado para o mercado consumidor até que teria um preço razoável, não fosse a sobrecarga de tributos nele embutida. Daí a dificuldade para consumir. Para não falar em guerra fiscal entre Estados-membros. Quem não sabe disso?
Está certo que essa atitude pessoal do presidente Fernando Henrique, extremamente conciliadora e tolerante - o que o torna refém da má vontade dos políticos - talvez não fosse a mais indicada para atender à presente conjuntura. Mas é indisfarçável a sanha dos grupos, categorias, classes, os vários segmentos da sociedade brasileira se digladiando para fazer prevalecer o seu interesse em prejuízo do interesse geral da Nação. Todos querem garantir o seu pedaço, e dane-se o resto. É como disse Leocádio Correia, recentemente: quando começa a surgir uma luz no fim do túnel, aparece alguém para fazer mais túnel.
Qual o melhor caminho para sensibilizar a classe política a olhar mais para o interesse geral? Quando um povo enfrenta uma guerra, interna ou externa, aumenta sua coesão em torno de ideais maiores, como a defesa da vida, da segurança, da liberdade. Não deixa de ser um caminho, mas é, obviamente, o pior caminho. Acontece que o Brasil já vive, na prática, os efeitos, as dores, de uma guerra, embora não declarada. E mesmo assim a elite dirigente (constituída pela situação, pela oposição e pelos segmentos economicamente fortes) não se sensibiliza.
Qual será o limite de dor a partir do qual começaremos a diminuir os túneis?
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado, em Curitiba

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