A luta
solitária
de Ronaldinho

Ana Moser
A expressão de sofrimento de Ronaldo, estampada nos jornais do mundo todo, comoveu até quem não ama o esporte tanto assim. Choro toda a vez que vejo as imagens repetidas. Já estive no mesmo lugar, com a mesma sensação de desespero que ele sentiu naqueles minutos e já senti aquela dor. Uma dor que não é somente física, mas também moral. Um instante de total fragilidade e desamparo quando, em questão de segundos, a pessoa tem total consciência de que está em sérios problemas. Ainda mais ele, que vinha de quase cinco meses de recuperação do mesmo problema que agora resultou numa contusão ainda mais grave.
Tudo o que foi feito nos últimos dois anos foi jogado na lata do lixo depois daquele drible fatídico. O futuro é incerto e qualquer caminho que ele escolha – e Ronaldo tem muitas opções... – fatalmente passará por um processo de construção e adaptação. Quando torci o joelho direito, estávamos a seis meses das Olimpíadas de Atlanta e os médicos previam oito meses de recuperação para a cirurgia que teria que fazer. Os dois primeiros dias foram terríveis.
Eu também estava me recuperando de uma outra cirurgia – no joelho esquerdo – e passei momentos de muita insegurança, principalmente por não saber se conseguiria voltar a jogar da mesma maneira que antes. Por saber que o processo de recuperação seria muito difícil, perguntava-me se valeria a pena o esforço. Acho que essas perguntas também devem estar na cabeça do Ronaldinho. Para superar uma encruzilhada como esta, a vontade da pessoa é a arma mais importante que ela pode ter. Não quero aqui dar plantão de conselheira, mas gostaria de até compartilhar com Ronaldo o que eu passei.
O primeiro passo que dei em busca da minha recuperação foi através da fé. Fé em Deus, na minha capacidade, nos profissionais que me acompanhavam e no trabalho que estava fazendo. Havia feito uma escolha: faria de tudo para me recuperar a tempo de jogar em Atlanta. Se tivesse sucesso, estaria tudo perfeito. Se, apesar de tudo, o tempo fosse curto, paciência...
Aproveitaria o processo para me reforçar ainda mais e voltar a jogar quando fosse o tempo certo.
Antes do atleta, é a pessoa que tem que voltar a se equilibrar para conseguir a cura. O caminho que eu encontrei foi através da evolução que alcançava diariamente. A gente vai aprendendo a dar valor às pequenas coisas e cada detalhe que eu melhorava num dia, servia de força para voltar à mesma rotina no dia seguinte. Uma coisa leva a outra: o corpo melhora, a cabeça fortalece e acaba ajudando o corpo. Só assim consegui recuperar a segurança nos movimentos e em tudo aquilo que eu seria capaz de realizar.
Mas foi uma luta diária, onde tive de buscar forças para cumprir uma rotina estafante. Durante 90 dias, contei com a ajuda de um grande fisioterapeuta, Jorge dos Santos, que ficou 24 horas por dia ao meu lado.
Apenas 30 dias depois da operação, estava treinando com bola e em pouco mais de três meses já estava competindo com a Seleção. Joguei a Olimpíada e ajudei a trazer a primeira medalha do vôlei feminino. Provei a mim mesma que era possível. A minha história de contusões começou muito antes disso, quando eu tinha apenas 16 anos, e continuei convivendo com a rotina de cuidados com os joelhos até o final da minha carreira de jogadora, em dezembro do ano passado. Ao todo, foram quatro cirurgias – duas em cada joelho.
Apesar de todas as pessoas que cercam Ronaldo, esta é uma luta solitária para ele. É a hora do homem Ronaldo assumir o comando deste momento e decidir por aquilo que o fará se sentir melhor. Nem o Filé, nem o Dr. Saillant, nem qualquer outro profissional, serão capazes de apresentar a fórmula mágica para curá-lo. Somente ele poderá construir o seu caminho, mesmo que não seja voltar a ser o melhor jogador do mundo. Mas que ele reencontre a sua alegria, o seu brilho. A única coisa que podemos esperar dessas pessoas que o envolvem e tanto o protegem, é que proporcionem as melhores condições técnicas e pessoais para que ele tenha sucesso neste grande desafio.
- ANA MOSER é ex-jogadora de vôlei e medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta
www.anamoser.com.br

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