O fechamento da Ponte da Amizade, os conflitos entre manifestantes e a polícia paraguaia, ocorridos em Ciudad del Este, e as decisões tomadas a partir das negociações entre ministros e sindicalistas ocasionou uma reação por parte dos trabalhadores brasileiros. Ontem, foi a vez de nossos trabalhadores impedirem o acesso ao país vizinho, já que foram atingidos pelas medidas tomadas pelas autoridades paraguaias. Contudo, esses fatos merecem uma melhor avaliação.
Em primeiro lugar, as reivindicações dos irmãos trabalhadores paraguaios, por mais empregos e melhores condições de trabalho, são justas, mas afetam diretamente milhares de trabalhadores de Foz do Iguaçu. A partir de agora, 70% das vagas ofertadas pelo comércio de Ciudad del Este devem ser ocupadas por trabalhadores paraguaios devidamente registrados, e somente 30% por estrangeiros, mediante comprovação de residência fixa no Paraguai. Essa decisão pode acarretar cerca de 5 mil demissões de brasileiros que trabalham no Paraguai, que vão engrossar a estimativa de mais de 30 mil desempregados e trabalhadores informais existentes na cidade.
A reserva de mercado não deixa de ser um ''curativo'' para aliviar o problema do desemprego paraguaio, apesar de criar sérias dificuldades para os trabalhadores brasileiros. A saída paraguaia não acaba com o problema, apenas tenta amenizá-lo, de forma temporal e localizada.
Esta situação chegou ao limite por falta de decisões políticas, não só dos governos brasileiro e paraguaio, mas de todos os países que compõem o Mercosul. Este organismo, até agora, não definiu sua política quanto às relações trabalhistas para os países do bloco. Seus acordos regem somente as transações de interesse das grandes empresas. Por outro lado, países ricos como Estados Unidos e Canadá, pretendem enfraquecer o Mercosul, com a proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), tentando transformar toda a América Latina, definitivamente, num grande quintal do capital internacional.
Neste momento em que os ânimos se acirram, os trabalhadores brasileiros não devem se deixar levar por sentimentos de retaliações e revanchismos na fronteira. Esta não é a primeira vez que trabalhadores brasileiros e paraguaios são jogados uns contra os outros. Foi assim no episódio dos taxistas, dos mototaxistas e, em incidentes mais graves, com os brasiguaios que possuíam pequenas propriedades rurais no Paraguai. Enquanto os trabalhadores se confrontam, os governos dos dois países continuam a obedecer às ordens do FMI, este sim, o verdadeiro inimigo dos povos e dos trabalhadores, em especial.
A política econômica sob o signo da globalização neoliberal, imposta pelos Estados Unidos, através do FMI, a todos os países pobres do planeta, espalham o despatriamento de riquezas, o desemprego, a precarização do trabalho e a miséria, males que devem ser combatidos por todos os trabalhadores do mundo. Também sabemos que os trabalhadores argentinos passam por dificuldades iguais e que os presidentes Fernando Henrique Cardoso, Fernando de la Rúa e Luiz Gonzalez Macchi estão de joelhos ao FMI, traindo os reais interesses de Brasil, Argentina e Paraguai.
Portanto, não vemos outra saída a não ser o combate sem tréguas à política econômica neoliberal. E essa luta passa pela união dos povos explorados contra o inimigo comum: o neoliberalismo e seus representantes.
O vereador Chico Brasileiro, do PCdoB, orientado pelo partido, apresentou na Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu a proposta de criação de uma Comissão Especial para acompanhar a situação e propor alternativas emergenciais, levando em conta as relações econômicas e geográficas, porém reafirmando os profundos laços culturais e de amizades, cristalizados entre os povos irmãos desta tríplice fronteira.


- PAULO BOGLER é secretário de propaganda do PCdoB em Foz do Iguaçu

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