De há muito a loucura nos espreita e sem mais nem menos nos toma. E neste final de século - medonho século, tão sem sal e morno que temos que vomitá-lo todos os dias - dormir pretensamente são e acordar tremendamente louco não é surpresa para ninguém. Os ricos, os que podem, têm lá guardado no armário do banheiro os seus prosacs e valiuns para dominarem desejos insanos como o de morder ou arrancar as próprias orelhas. Mas, e para os ignorantes, os miseráveis, essa imensa manada chamada de despossuídos, o que resta? A pinga, a ruína do fígado e refrigério d’alma? A ignorância em si mesma, que na sua impotência transforma o racional na mais incrível fábula. O fanatismo religioso, que a tudo explica em redundantes absurdos?
‘‘Foi uma mensagem enviada por Deus’’, afirma o agricultor Francisco Bezerra de Morais, autoproclamado pastor da Igreja Pentecostal Unidos do Brasil. Ele e mais sete ‘‘fiéis’’ mataram no mês passado seis pessoas e feriram outras 60 num seringal da distante e nunca lembrada Tarauacá, no Acre. Os corpos das vítimas, crianças inclusive, mortas com chutes, pauladas e facões, ficaram dias abandonados na mata e quando encontrados pela polícia estavam praticamente irreconhecíveis, pois serviram de pasto a feras e animais próprios da região amazônica.
A humanidade sempre fez tolices, quando não loucuras em nome de Deus, e matar é a menor delas. Em Heródoto podemos encontrar longos relatos sobre a história de povos que imolavam seus semelhantes para aplacar a ira de seu criador. Os ritos poderiam se fazer com uma singela fogueira, no tronco, em altares, onde a vítima era sangrada até a última gota. Outros povos, além de matar, coziam e comiam a carne dos pobres-diabos dados em honra a Deus.
Na época de Heródoto, século V a.C., os líbios nômades cortavam a orelha da vítima e atiravam-na sobre o telhado da casa, depois torciam-lhe o pescoço e ofereciam seus sacrifícios ao Sol e à Lua. Os getas, que habitavam a Trácia, de cinco em cinco anos sorteavam um dentre eles para levar notícias ao deus Zálmoxis - o jornalismo é uma profissão antiga! - Este mesmo povo tinha o costume de atirar flechas contra o céu quando trovejava ou relampejava.
Porém, à medida que a razão foi tomando o vasto terreno do conhecimento empírico e da própria ignorância, nossos antepassados foram se dando conta que homens espetados ou transformados em fumaça em nada poderiam engrandecer a um Deus que crescia em misericórdia. Hoje, estes ritos pertencem àquela grande gaveta das curiosidades históricas. Mas a história morde o próprio rabo e às vezes surge um grupo de fanáticos para abrir a gaveta de nossas práticas bárbaras.
De fato, nossos bárbaros de Tarauacá buscaram no fanatismo religioso uma justificativa para suas miseráveis existências no seringal dos esquecidos. Quase todos nasceram lá, viviam num isolamento brutal, sem saber nada sobre as letras, sem rádio e com uma TV que mal funcionava. Somemos a isso toda ignorância possível e o fundamentalismo cristão dos pentecostais e as mortes acontecidas poderão ser justificadas.
Os assassinos estão presos, pois a justiça ainda não abandonou por completo esta terra. Ao serem condenados, eles devem inaugurar uma nova modalidade de crime: a loucura pela ignorância. Mas presos mesmo deveriam estar os ministros da Educação que permitem aos brasileiros - por pura falta de instrução - voltarem a ter um comportamento esquecido até mesmo pela história.
JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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