Conta-se que um amigo de Olavo Bilac lhe pediu ajuda para escrever um anúncio de venda de sua propriedade. Não conseguia encontrar palavras que despertassem o interesse de um comprador.

Bilac escreveu:

"Vende-se encantadora propriedade, onde os pássaros cantam ao amanhecer em meio ao extenso arvoredo, cortada pelas águas cristalinas de um ribeirão. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes em sua varanda."

Ao ler o anúncio, o proprietário desistiu da venda. Percebeu que possuía um lugar muito mais bonito do que imaginava e comentou: "Era esta a propriedade que eu tinha e não sabia."

Sempre me lembro dessa história quando penso em Londrina.

Muitos de nós conhecemos apenas um pequeno pedaço da cidade onde vivemos. Circulamos pelos mesmos bairros, enfrentamos os mesmos problemas do dia a dia e acabamos perdendo a capacidade de enxergar a riqueza que existe ao nosso redor.

Recentemente participei de uma palestra no Fórum Desenvolve Londrina, conduzida por Marcelo Frazão, da ONG MAE. As informações apresentadas surpreenderam até pessoas que nasceram aqui e trabalham há muitos anos pensando o futuro da cidade.

Você sabia que Londrina é o município onde o Rio Tibagi percorre sua maior extensão, com cerca de 84 quilômetros? Ou que possui mais de 80 fundos de vale preservados, formando um patrimônio ambiental raro entre as cidades brasileiras?

Temos a Mata dos Godoy, uma das mais importantes áreas de Mata Atlântica do Paraná, um Jardim Botânico ainda pouco conhecido pela população, além de parques urbanos, lagos, áreas verdes e uma biodiversidade que muitas cidades gostariam de possuir.

Mas Londrina não se resume às suas belezas naturais.

Somos um grande polo de educação, com escolas, universidades e centros de pesquisa que recebem estudantes de todas as regiões do Brasil. Nossa produção cultural reúne artistas, escritores, músicos, grupos de teatro e dança que fazem da cidade um ambiente criativo e vibrante.

Na saúde, Londrina consolidou-se como referência. Hospitais, clínicas e modernos centros de diagnóstico atendem diariamente pacientes de dezenas de municípios. Nossa odontologia também figura entre as melhores do país, atraindo pessoas de diversas regiões brasileiras e até do exterior.

Recentemente, enquanto aguardava um exame de imagem, percebi que eu era praticamente o único londrinense na sala de espera. A maioria havia vindo de outras cidades em busca do atendimento encontrado aqui.

Há ainda uma qualidade que dificilmente aparece nas estatísticas: a forma como Londrina recebe quem chega. Talvez por ter sido construída por pessoas de diferentes origens, a cidade conserve um espírito de acolhimento que impressiona os visitantes.

Guardo uma lembrança que ilustra isso. Há alguns anos recebi um grupo de oficiais da Marinha, do Rio de Janeiro. Ao final do almoço, o comandante da comitiva, um almirante, elogiou a limpeza da cidade, sua beleza e a educação no trânsito.

Fiquei surpreso. Eu mesmo vinha enxergando apenas os defeitos. A observação daquele visitante me fez olhar novamente para a cidade onde sempre vivi e perceber que, muitas vezes, deixamos de enxergar suas qualidades.

Isso não significa fechar os olhos para os problemas. Londrina tem desafios importantes e precisa continuar avançando. Mas uma cidade que não reconhece seus próprios valores também perde a capacidade de preservá-los e construir um futuro melhor.

Há muito mais para contar. Este artigo apresenta apenas uma pequena parte daquilo que temos, mas que muitas vezes passa despercebido.

Talvez o nosso maior desafio seja justamente este: conhecer melhor a cidade em que vivemos.

Afinal, ninguém ama o que não conhece. Ninguém preserva o que não valoriza. Ninguém sente orgulho daquilo que nunca aprendeu a enxergar.

Talvez sejamos como o proprietário da história atribuída a Olavo Bilac: convivemos diariamente com uma cidade extraordinária sem perceber plenamente o seu valor. Às vezes, basta o olhar de quem vem de fora para nos revelar a Londrina encantadora que sempre esteve diante dos nossos olhos.

Ary Sudan, empresário e diretor do Fórum Desenvolve Londrina.

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