Se a lógica fosse o elemento de terminante da política, os cená rios visíveis a olho nu seriam os mais prová veis de ocorrer e os atores dos en saios estariam seguramente na peça no dia da estréia. Cenário da lógica: Lula será o próximo presidente da República. Argumento: com 32% dos votos dos brasileiros, Lula estaria, hoje, no segundo turno das eleições.

Digamos que Lula consiga carregar esse índice até as eleições e que seu opositor, na reta final, seja José Serra, Tasso Jereissati ou outro governista. Os outros candidatos da oposição Ciro Gomes, Itamar ou Garotinho tenderiam a votar em quem? Resposta: em Lula.

Imaginemos, agora, Itamar, candidato do PMDB, disputando com Lula no segundo turno. Os governistas votariam em Itamar? Santa ingenuidade. Lula na cabeça. Votariam em Ciro, que, à semelhança de Itamar, virou inimigo número 1 do presidente Fernando Henrique? Pouco provável. Desta forma, o ex-metalúrgico possui efetivas condições de tomar assento no Palácio do Planalto.

Mas a política, como os desígnios de Deus, é algo insondável. Há, na política, situações que só se completam depois de terem sido consideradas improváveis. A seara política constitui o território do acaso, esse instigante fenômeno que, para uns, é sinônimo de oportunidade e, para outros, janela aberta para o ocaso, o declínio, o infortúnio.

Muitos, como Fernando Henrique, podem se considerar filhos da sorte. A resposta mal calculada, num programa de televisão (FHC respondeu que era ateu e havia fumado maconha na adolescência), acabou dando a vitória a Jânio, na campanha de 85, para a Prefeitura de São Paulo. Fosse prefeito, os caminhos trilhados seriam diferentes e, provavelmente, não teria ganho dois mandatos de presidente da República. Sarney deve a Presidência à fatalidade que levou Tancredo. Collor levou um chá de cadeira de algumas horas, esperando para ser atendido por Mário Covas, de quem queria ser vice-presidente. Não foi atendido e, desprezado, decidiu se candidatar à Presidência.

Ora, quando o marqueteiro de Lula diz que vai embalá-lo com a colcha da emoção para acabar o medo dos eleitores no PT, pensamos, de imediato, na pequenez de certos políticos diante de outra classe de homens, aqueles que fazem da humanidade um pedestal de grandeza.

O que o marketing da emoção pretende é produzir um garrote psíquico para colocar sobre o pescoço das massas. No momento em que o voto sai do coração para subir à cabeça, tal intenção pode se transformar num golpe traiçoeiro no acaso. O efeito desejado poderá ser um bumerangue, uma firula em forma de coraçõezinhos de papel crepom vermelho despejados do topo de arranha-céus.

Se esse é o tipo de coisa sólida a se produzir em Lula, corre o risco de se desmanchar no ar. A sociedade brasileira banha-se de racionalidade. Nem lá nem cá. Modelos técnicos são vistos como extensões de robôs. Imagens humanizadas em laboratório, retocadas com tinta de matiz extravagante, não cabem em molduras que rejeitam plantas artificiais.

Por que José Serra, político e administrador de renomadas qualidades técnicas, não cresce nas pesquisas? Porque, entre outras coisas, parece ser feito de matéria plástica, um sujeito imune às intempéries, tão senhor de si, que, em velório ou em sambódromo, arrisca-se a exibir a mesma feição de onipotência e arrogância.

É claro que o povo também não se ilumina com pavios destemperados, do tipo Itamar Franco, cujo exagero em vieses e gestos rocambolescos, ofusca a imagem positiva do presidente que patrocinou o Real e construiu os alicerces da estabilidade.

O Brasil precisa de um perfil que conjugue valores da experiência e do preparo intelectual, da assepsia e da ética, da autoridade e do respeito, da coerência e da determinação. E que tenha condições de interpretar o delicado momento internacional, preparando o país para enfrentar os desafios cada vez maiores e arrumar a estrutura social, desorganizada e deteriorada em função das crescentes desigualdades sociais.

Se os perfis de pré-candidatos começam a ser retocados em provetas, com a única intenção de fisgar o eleitor, é razoável supor que os eventos do acaso poderão destruir arcabouços fabricados com falsas versões e mentiras. A eficácia do marketing reside na preservação da identidade dos atores.

Como reza a Escritura, nenhuma pessoa, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura, e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano. O povo está vacinado contra o ''tamanho'' e a ''qualidade'' que se quer atribuir a políticos e candidatos. A cada um, deve-se conferir sua real taxa de verdade. Sem tirar nem pôr. Marketing só é eficaz quando não entorta a vértebra do cidadão. Não há modelo, emotivo ou racional, que seja capaz de mudar o traçado do destino.



- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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