A lógica do jogo - André Stumpf
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de dezembro de 1998
André Stumpf 
Não sei se o leitor já percebeu, mas está em curso uma operação volta Mendonça. Nos últimos dias, diversos jornais publicaram artigos de membros destacados do governo tecendo elogios ao ex-ministro e assegurando que ele nada fez de errado. Cada um tem direito a sua opinião, mas o esquema que está se armando é perigoso e tem grandes chances de produzir outra confusão de bom tamanho.
O presidente da República, segundo seus principais interlocutores, está decidido a criar o Ministério da Produção, que seria o atual Ministério da Indústria e Comércio unido ao BNDES e alguns adereços. Será um endereço destinado a gastar verbas, incentivar obras e montar esquemas de atração de investimentos. Seria, também, a principal peça do governo para reduzir o desemprego, cujos índices estão extrapolando a qualquer análise. São alarmantes.
Os líderes já decidiram que o presidente da República fará a convocação extraordinária do Congresso, no mês de janeiro, quando os derradeiros projetos contidos no pacote de ajuste fiscal deverão ser votados. A votação, portanto, vai se dar ainda com os parlamentares da atual legislatura, embora o segundo governo FHC já esteja no ar. O País vai viver, então, uma situação curiosa. O segundo mandato vai começar aos poucos.
Alguns ministros serão trocados no início formal do segundo governo, no dia 1º de janeiro, mas novas pastas não serão criadas. Os líderes dizem que é possível ter um novo ministro de Comunicações, um novo ministro do Trabalho e coisas semelhantes, tudo para compor a enorme aliança que conduziu Fernando Henrique Cardoso ao seu segundo mandato. Mas o Ministério da Produção, se vier, será criado depois da convocação extraordinária e da votação do ajuste fiscal. Será o segundo começo do segundo mandato.
Há candidatos para todos os gostos e de todos os partidos para ocupar as saborosas vagas que ficarão disponíveis na Esplanada dos Ministérios. Para o Ministério da Produção, no entanto, as apostas se concentram em dois nomes. O mais falado, e silabado por quem tem intimidade com o poder, é o do ministro Paulo Renato, atualmente na Educação. O segundo, sussurrado, é o de Mendonça de Barros. É claro que ele pode retornar, afirma um parlamentar de livre trânsito no Planalto. Por que não?, provoca.
Em verdade, os líderes do governo estão mais preocupados, no momento, em aprovar as medidas de arrocho fiscal e salarial contra a população. O governo tem contas a prestar ao Fundo Monetário Internacional. Não pode brincar em serviço, neste momento. Enquanto isso, o senador Antonio Carlos Magalhães briga com o ministro José Serra em público. Partidários de um e outro elevam o tom da desavença. ACM, que ontem saboreou o som da Bahia no almoço com Gilberto Gil, não pretende falar mais no assunto. Segundo ele, Serra quer se transformar uma espécie de anti-ACM e assim ganhar mais espaço nos jornais.
As críticas recíprocas entre o presidente do Senado e o ministro da Saúde não avançam nada em termos de esclarecimento da montagem do futuro governo. É uma fotografia das desavenças que se aprofundam quando chega o momento de o presidente distribuir empregos por toda a sua coligação para alcançar a governabilidade. Quem meter o cotovelo e abrir o caminho, naturalmente, receberá maior número de cargos e estará em vantagem dentro da aliança. É o que está em jogo hoje.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


