A lista fechada, um retrocesso
A proposta de reforma política, que deve entrar esta semana na pauta da Câmara Federal, toca em três pontos - o sistema de lista dos candidatos, o financiamento público das campanhas e a fidelidade partidária - mas não trata da relação entre os parlamentos e o povo. A troca do voto nominal pelo voto na legenda é por todas as formas abominável, pois dá aos caciques dos partidos o poder de decidir quem é o eleito. Assim, fica afastado o poder soberano do eleitor, porque os mandantes das corporações políticas correrão o dedo indicador pela lista e decidirão quem deve assumir o cargo, nas três esferas do Poder Legislativo.
Se hoje, após o voto, os eleitores têm pouco poder de ação sobre os atos de seus eleitos - embora também não se empenhem muito nisso - essa absurda proposta da lista fechada tira de vez o vínculo dos cidadãos com os seus representantes na Câmara Federal e no Senado, nas assembléias legislativas e nas câmaras de vereadores. Fica robustecido assim, e com grande vigor, o instituto das ''igrejinhas'', e nem mesmo os membros do partido que não figurem na direção terão direito a dar palpite. Nomes de preferência dos eleitores poderão não figurar na listagem, e isto significa afastar ainda mais a vontade popular das decisões políticas.
Serão nomeados os preferidos de uma pequena casta, dentro do partido, e pela tradição já se sabe quem são esses cardeais, já ungidos de muito poder, pois são eles os titulares das bancadas e realmente os que decidem. E mais, eles decidirão se lhes for conferido esse poder só dado aos reis. As cúpulas partidárias terão em mãos um excepcional poder decisório e de manipulação. Sem dúvida, um retrocesso. Se os partidos já não respeitam os anseios da nação e deles nem se ocupam, irá subtrair da população também o direito da escolha de quem deseja eleger. Se essa proposta for aprovada, ficará ainda mais enfraquecido o poder representativo do povo nos parlamentos.
Bons candidatos acabarão sendo eliminados pelos mandantes, para dar lugar aos tradicionais - de esquemas e costumes conhecidos - abrindo amplo portal para a permanência de corruptos e incompetentes que os eleitores não desejariam reeleger. O eleitor não tem referência para votar apenas no partido, porque - com algumas variações - todos são iguais em seus fundamentos, organicamente perfeitos e capazes de causar inveja às melhores democracias - mas nem de longe eles são seguidos. Do que realmente interessa nessa anunciada reforma política, o principal não vai entrar em discussão, que é o cumprimento do compromisso público previsto no programa partidário e a melhoria da representatividade e do desempenho dos eleitos.





