A liderança astuciosa de José Sarney
Os líderes se impõem porque são sábios ou porque são astutos e bem informados. Os primeiros atraem os que têm sabedoria, e os astutos seduzem os seus iguais e de tal forma os envolvem que os convertem em vassalos. Um líder que se plasma no meio da astúcia cresce e vai se robustecendo porque seus semelhantes são mais numerosos que os sábios. Assim o astuto vai se tornando indispensável pelo grupo de seguidores e estes chegam a um ponto de não conseguirem atuar sem ele.
Unindo a astúcia do líder e a fraqueza do seguidor - um nutrindo-se do outro - forma-se um poder, e mesmo que o deseje, essa parceria não consegue desfazer-se, porque os elos dessa corrente não se desprendem, tal a força de aglutinação que os entrelaça. As partes que compõem essa corrente passam a formar um todo indissociável, e assim um elo fica dependente de outro.
A liderança do político de carreira José Sarney é a representação dessa corrente, e os elos são a soma dos que se atrelam por análoga identificação. A razão que os uniu torna difícil desfazer essa cadeia. Sarney formou uma malha, e quem caiu ou tem de cair nela dificilmente consegue livrar-se. Sair desse grupo poderá implicar no risco de não ter, sequer, seus projetos avaliados. A menos que se converta num líder igual. O senador maranhense comanda com maestria um vigoroso exército de parlamentares das duas Casas do Congresso. Estes, pelo vicioso e constante exercício da submissão e também porque se acomodam no conforto de ter quem decida por eles, são brindados na contrapartida com muitas benesses. Assim, um por todos e todos por um. Tais líderes, depois que ganham corpulência, só se extinguem pela morte. Assim foi com Ulysses Guimarães e com Antonio Carlos Magalhãesá e assim é com José Sarney. No Paraná foram os 40 anos de mando direto e indireto de Aníbal Khury, tão igual no feitio quanto os três. O presidente Lula teme ficar só, sem Sarney, porque o velho político arrasta o PMDB inteiro e o DEM (que juntos o levaram à presidência do Senado) e outros partidos mais. Sarney é a base de um castelo, e mover essa pedra basilar é certeza de muitas rachaduras ou de um desmoronamento. O Governo parece não respirar sem essa exponencial figura, pela mobilização dos parlamentos de que é capaz.
Sarney chegou a ganhar mais robustez ao invés de enfraquecer-se, depois do escândalo dos atos secretos, porque usa seu poder de barganha. Ele tem um fascinante poder de liderança porque encontra ressonância em seus iguais. Pelo domínio que tem sobre uma vasta legião de convenientes e obedientes seguidores - porque ele sabe de todas as coisas - é tanto um acelerador da máquina governamental como pode ser um freio capaz de, numa brecada brusca, causar um capotamento.





