A licenciosidade do poder público
A instalação de cerca elétrica numa escola pública, que leva à morte de um estudante; a negligência ao entregar ao uso uma rotatória e um trecho de rua não concluídos e que resultam em acidentes. Estes são apenas dois exemplos mas que demonstram a licenciosidade dominante no poder público, que imagina poder cometer todas as irresponsabilidades, sem sofrer punições. A culpa não está neste ou naquele, mas no sistema, que é arbitrário, irresponsável e desrespeitador. O desfilar das barbaridades é um mal nacional, que vigora praticamente impune. O episódio da instalação da cerca mortífera em escola constitui um crime, porque existem sistemas do gênero que não são fatais, mas para isto não atentaram os que mandaram instalar a armadilha fatídica. Tal ocorre porque, no âmbito das instituições públicas em geral, as coisas acontecem comandadas por um poder que opera à margem da civilidade. A rua e a rotatória não ficaram prontas mas foram entregues para uso, semi-abandonadas e gerando acidentes. Isto é bem a demonstração de irresponsabilidade e da crença de que os agentes do poder público não devem explicações ao povo, porque eles são os próprios detentores da autoridade e do poder de punição. E na prática o fazem à exaustão, por via de arrochos tributários, multas, execrações e impedimentos que dificultam a recuperação e a vida dos cidadãos. Se as sanções são necessárias para disciplinar o comportamento dos cidadãos em sociedade, certo é que o poder público é ditatorial e abusivo, e sabe que no mais dos casos consegue livrar-se dos seus desmandos. Um jovem morre eletrocutado, uma senhora voa com sua moto sobre uma obra não concluída e sem sinalização noturna, e a tendência desses casos é cair no esquecimento, até que imprevidências idênticas voltem a acontecer. Pessoas idosas e não apenas elas torcem os tornozelos nas calçadas esburacadas, porque não há uma política voltada para recuperação dessa passarela de pedestres. Sinaleiros ajustados sem um princípio de atendimento ao fluxo dominante geram queima desnecessária de combustível, atraso e irritação. Fiscais municipais, pagos com dinheiro do povo, só existem para multar o mesmo povo, e não são encontráveis em lugar onde seriam úteis, como o da obra citada. Eles são orientados para, além de capturar multas, atuar junto aos fiscais da Zona Azul e ficar multando os que, ocupados com as tarefas de seu trabalho, excedem alguns minutos do tempo ''regulamentar'' do estacionamento. Pequenas obras que poderiam ficar prontas em trinta dias, como as citadas, se arrastam por meses, porque não há a preocupação de que isto está dificultando a vida dos cidadãos, pouco importando aos detentores do poder se alguém se arrebenta de encontro a obras inconclusas e sem sinalização, ou se morre eletrocutado. Difícil, nos casos mencionados, saber quem é o servidor diretamente culpado, porque o mal emana de um sistema licencioso, que opera sem freios e triunfante em seus atos irresponsáveis.





