A lição do Grande Ditador - Tarcísio Vanderlinde
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de janeiro de 1998
Tarcísio Vanderlinde 
Como o leão que ruge, e urso que ataca, assim é o perverso que domina sobre um povo pobre. (Provérbios de Salomão - 10º século a.C)
Em síntese brilhante sobre o presente quadro de tensões sociais (Folha de S. Paulo, 2.8.97), Milton Santos afirma que as desordens atuais não são pontuais ou ocasionais. Essas tensões, diz ele, fazem parte de um processo estrutural em andamento, do qual o território brasileiro é um quadro e também um ator. A globalização, segundo o autor, imposta brutalmente como um dado absoluto, instala uma nova forma de uso do território, impondo modificações súbitas aos conteúdos quantitativos e qualitativos, alterando as relações mantidas dentro de um país. Daí as manifestações e o agravamento das tensões no território brasileiro. A desordem instalada seria, na ótica do autor, como uma vingança do território contra a perversidade do seu uso. E, neste caso, o exercício da cidadania funcionaria como um dique diante da agressividade das relações típicas da globalização, conclui o autor.
Coincidentemente, no dia em que li o artigo do professor, juntamente com minhas filhas, assistia O Grande Ditador, filme de Charles Chaplin, realizado em 1940. O paralelo, entre o que li e a mensagem veiculada no filme, foi inevitável. E como tive curiosidade de saber se Hitler havia assistido aquele filme, uma vez que tecnicamente teria sido possível, fui informado de que, durante muito tempo ele havia sido censurado, por conter para a época uma mensagem muito ousada, infelizmente só ouvida e vista após a tragédia da Segunda Guerra Mundial.
Chaplin, um dos nomes mais brilhantes da história do cinema, escreveu e dirigiu praticamente todos os seus filmes, compondo a partitura musical de todos eles a partir do advento da sonorização. Em O Grande Ditador, história que começa a ser contada a partir de 1918, ele destaca a seguinte nota de introdução: Esta é a história de um período entre duas guerras, durante o qual a loucura imperava, a liberdade desapareceu e a humanidade foi chutada não se sabe para onde.
Embora o respeitadíssimo historiador Erich Hobsbawn, em Era dos Extremos, tivesse dito que o século XX acabou nos anos 80, entendo principalmente o final da história do Grande Ditador, mais conhecida como Último Discurso, possui uma mensagem permanente e atualíssima, que permite uma interessante metáfora relacionada aos perversos subprodutos resultantes da globalização. A análise dos trechos que destaquei, fica por conta do leitor. O personagem da história, como sempre o perspicaz Chaplin, incorporando oportunisticamente o lugar do grande ditador, conclui a história, proferindo o seguinte discurso:
Gostaria de ajudar - se possível - judeus, gentios, negros, brancos... Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para seu infortúnio. Por que haveremos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens. Levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e a morte. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos, nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas feições a vida será só violência e tudo será perdido. (...) Não sois máquinas! Homens é que sois! (...) não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou de um grupo de homens todos! Está em vós! Vós tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós tendes o poder de tornar esta vida bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa (...) lutemos por um mundo novo... Um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice (...) um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.


