Pego de surpresa em abril ao dar ao candidato ultradireitista Jean-Marie Le Pen condições para disputar o segundo turno da eleição presidencial, o eleitor francês foi obrigado ontem a fazer renascer o direitista Jacques Chirac, atual presidente do país, que governa desde 1997 – dois anos depois de eleito – em meio à cinzas do seu desmoronamento político. Naquele ano, Chirac acenou com a dissolução da Assembléia Nacional e a resposta foi a esmagadora vitória das esquerdas nas legislativas. Como castigo, não pôde aplicar seu programa de governo, face à necessidade de conviver com uma oposição dominadora.
Agora, Chirac tem a chance de renascer das cinzas. Porque em abril o eleitor francês, confiante, se omitiu do seu direito de voto e, com isso, eliminou da disputa justo aquele que no momento é o político mais combativo aos planos de direita de Chirac: o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. Num país onde o voto é facultativo, o eleitor da França confiava que, no máximo, o segundo turno ficaria para Chirac e Jospin, que representam, respectivamente, uma direita controlável e uma esquerda confiável. Jamais estes eleitores esperavam que suas ausências nas urnas resultassem na definição da direita e da extrema-direita, representada por Le Pen.
É o risco da democracia. Verdade que, no Brasil, o voto é obrigatório. Mas ainda é forte no nosso País o segmento de eleitores que não querem perder seus votos. Assim, ajudam a eleger candidatos que, nas pesquisas, despontam como os mais próximos da eleição. Pesquisas, por mais confiáveis que sejam, retratam um determinado momento dentro do processo eleitoral. Um fato negativo pode fazer o primeiro colocado nas consultas cair para o último.
A melhor lição que vem da França, portanto, é que o eleitor, a partir do momento em que definir seu candidato, com base na sua proposta política, não se deixe influenciar por fatores externos, como o bombardeio de ataques inclusive com munições extraídas da vida pessoal dos políticos. A briga, no Brasil, será acirrada entre os candidatos. Na França, a omissão manteve na disputa um candidato de direita e outro de extrema-direita. No Brasil, não há risco de radicalismo nem com a esquerda e nem com a direita. Mas o melhor candidato, seja quem for, não pode ficar de fora por equívocos do eleitor. A França errou e nos deixou essa lição. Cabe a nós praticá-la.

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