Um dos maiores anseios de todo indivíduo é ser livre. Desde há muitos séculos e de modo mais enfático após a Revolução Francesa de 1789, a busca pela liberdade em todas as suas vertentes tem constituído um sólido objetivo, não somente dos indivíduos, mas também dos povos. E muito foi conquistado. Atualmente, na maioria dos países ocidentais e em vários orientais, as pessoas são livres para fazer suas escolhas e determinar os caminhos que trilharão ao longo de suas vidas, no trabalho, em suas relações afetivas, em suas crenças ou descrenças religiosas e em todas as outras faces da vida privada; as liberdades desdobraram-se e ampliaram-se a tal ponto que é possível considerá-las praticamente irrestritas.

Múltiplos são os modos de vida, ilimitadas são as formas de relacionar-se, a palavra de ordem diante de tanta liberdade é a busca pela autossatisfação e pelo prazer. Todavia, ao observarmos mais atentamente a vida contemporânea, surpreendentemente vislumbramos manchas que impedem que este cenário, aparentemente perfeito, de liberdades irrestritas, seja límpido e colorido como a princípio se poderia supor. E por que, adultos homens e mulheres, jovens e crianças que vivenciam a liberdade da maneira mais ilimitada de todos os tempos não usufruem de uma maravilhosa sensação de felicidade e paz que supostamente deveriam sentir? Talvez porque o caminho para a felicidade e paz plenas e verdadeiras não esteja na liberdade irrestrita.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2009) desenvolveu o conceito de sociedade líquida no qual a vida não se restringe a uma direção única, o que leva a frustrações advindas da incerteza causada pela infinidade de caminhos possíveis que culminam, entre outros sentimentos, em desapego do outro, indefinição de valores, medo de tornar-se descartável e só e dificuldade em visualizar um sentido para a própria vida.

Por que em uma sociedade na qual as possibilidades de vida, prazer e escolhas são ilimitadas temos crescentes índices de depressão, síndromes do pânico, angústia exacerbada e suicídios?

Talvez a resposta esteja em uma outra proposta, aquela que dispõe que não foi para liberdades irrestritas que fomos criados. O apóstolo Paulo (1 Cor 6, 12) ensinava que “tudo me é permitido mas nem tudo me convém”. Jesus, ao ensinar Seu plano de amor e salvação, nos propõe uma vida de paz e felicidade verdadeira, mas nos ensina que não é buscando o prazer a qualquer custo que iremos alcançar esses ideais. É preciso cuidado! Cuidado com as armadilhas do mundo, que nos prometem alegria e prazer, mas que entregam frustração e vazio. Ao contrario, o que Jesus nos oferece é uma alegria genuína, mas que pede a renuncia a ações que não condizem com os ensinamentos de Cristo.

É preciso que fique claro que a proposta de Jesus não é de cerceamento de liberdades, pelo contrário, Ele nos quer verdadeiramente livres. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1), mas enxerga em Sua infinita sabedoria que, para não sermos escravizados pela sensação de frustração, abandono e falta de sentido na vida, é preciso que percebamos que os limites que nos ensina são na verdade redes de proteção e amor.

GLAUCIA CARDOSO TEIXEIRA TORRES é professora de Direito e catequista

mockup