A liberdade para segurar o chicote
Por que pessoas sujeitas à desigualdade podem se identificar com discursos reacionários que preservam ou restauram hierarquias das quais elas próprias sofrem as consequências?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Por que pessoas sujeitas à desigualdade podem se identificar com discursos reacionários que preservam ou restauram hierarquias das quais elas próprias sofrem as consequências?
João Luiz Esteves 
Nestas eleições, em primeiro turno, uma deputada federal reeleita saiu às ruas de chicote em punho, batendo-o no chão para celebrar a vitória. Júlia Zanatta (PL/SC) explicou ainda que a palavra “relho” é uma expressão regional, e foi utilizada para celebrar sua eleição. A explicação não elimina a força da imagem. Ainda mais quando se considera sua oposição ao fim da escala 6x1 com a consequente redução da jornada de trabalho.
O chicote, para a história brasileira, é também um instrumento de submissão. E a cena remete a uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra escrita por Machado de Assis no século XIX.
Brás Cubas encontra Prudêncio, seu antigo escravizado, agora liberto, chicoteando outro homem. Prudêncio havia sido humilhado e castigado. Livre, reproduz a violência que conhecera. Quando o antigo senhor determina que pare, obedece: “Nhonhô manda, não pede”. Mudara sua condição jurídica de escravizado para proprietário de escravos, mas não a lógica de poder que aprendera a reconhecer.
Machado não nos mostra apenas uma vítima transformada em algoz. Mostra uma ordem social e econômica que permanece dentro das pessoas. Prudêncio não deseja o fim do chicote: deseja ocupar a posição de quem pode usá-lo.
Voltemos às urnas. É razoável supor que entre os eleitores de Zanatta estejam trabalhadores submetidos a jornadas extensas. A questão, portanto, vai além de uma eleição: por que pessoas sujeitas à desigualdade podem se identificar com discursos reacionários que preservam ou restauram hierarquias das quais elas próprias sofrem as consequências?
É fácil responder que lhes falta consciência, que foram enganadas ou que agem irracionalmente. Mas essas respostas, além de insuficientes, dispensam a investigação do que realmente importa: como se formam nossas maneiras de pensar, nossos desejos e nossas identificações políticas.
Não devemos compreender novos fascismos, em suas manifestações de autoritarismo e exclusão social, como simples manifestações de irracionalidade ou desvios psicológicos de quem está no topo do sistema, mas a partir das contradições da própria sociedade. Em um sistema individualista que transforma a concorrência em regra geral e naturaliza a exclusão, a promessa de vida digna não se realiza para todos. E quem fica de fora pode ser levado a desejar não a transformação dessa ordem, mas seu ingresso no grupo dos que desfrutam privilégios. O fascismo pode encontrar sustentação naqueles que, submetidos à exploração, passam a identificar-se com sua lógica. Se identificar com quem domina e apoiá-lo surge, então, como promessa de ascensão.
Não existe uma explicação única para as escolhas eleitorais. Mas a dominação pode reproduzir-se por meio das aspirações — e também do voto — daqueles que são dominados. A desigualdade deixa de ser compreendida como uma construção histórica e passa a ser vista como algo inevitável. Vencer e submeter o outro passam, então, a se confundir com ser livre.
Romper esse círculo exige mais do que condenar quem empunha o chicote ou censurar quem o aplaude. Exige demonstrar às pessoas as contradições históricas e econômicas que produziram nossas instituições e moldaram aquilo que nos tornamos. Somente ao compreender por que aceitamos como naturais certas hierarquias e exclusões podemos começar a transformá-las.
A pergunta deixada por Prudêncio continua atual: queremos uma sociedade em que as pessoas desejem segurar o chicote ou uma em que ninguém precise se curvar diante dele? Às vésperas do segundo turno, vale refletir sobre ela — sem imaginar que uma eleição, sozinha, possa respondê-la. Afinal, uma eleição pode impedir que a dominação se aprofunde, mas sua superação exige transformar a lógica social que produz tanto a desigualdade quanto o desejo de dominar.
João Luiz Esteves, professor de direito constitucional e direito administrativo da Universidade Estadual de Londrina


