A liberdade de imprensa que incomoda
Da mesma forma que o rigor sobre as escutas clandestinas favorece a proteção às falcatruas no âmbito dos governos, a investida agora para cercear direitos e liberdades da imprensa não é outra coisa senão reforçar as defesas de que os homens públicos querem cercar-se. Porque veículos de comunicação livres nunca foram prejudiciais ao povo mas incomodam os maus políticos e os maus administradores públicos e outras autoridades que tiram proveito escuso do poder.
Ao depor na CPI dos grampos o ministro Nelson Jobim, da Defesa, agora propõe mudanças na Lei de Imprensa, de forma a obrigar os jornalistas a revelarem as fontes de informação quando forem sigilosas. Como quer o ministro que ajudou a escrever a atual Constituição os meios de comunicação não devem ter liberdade de divulgar informações obtidas daquela forma (o sigilo, assegurado pela lei) e nem por via de escutas clandestinas ou que lhes forem repassadas por essa via.
O ministro quer estreitar o gargalo desse canal, com o óbvio objetivo de a população saber menos sobre o universo de sombras do sistema governamental, que por graça justamente da liberdade de tais veículos tem se revelado tenebroso. Porque a imprensa tem a indiscrição de contar histórias de superfaturamentos, mensalões, protecionismos, autobenefícios, gasto abusivo dos Poderes, arrocho nos impostos, muita inoperância e baixo rendimento funcional. O grampo é criação do próprio meio oficial, porque o poder se nutre de informações e contra-informações, do denuncismo e do fomento às intrigas. Mas se o grampo é uma ferramenta de quem busca saber do alheio, não agrada a quem passa a ser vigiado. Por isso não é questão fundamental no conceito popular o delito da escuta telefônica clandestina ou outra forma de quebra de sigilo na esfera pública.
Os Poderes não querem ser vigiados de forma alguma e muito menos por jornal, rádio, televisão e internet. A primeira coisa que governos ditatoriais fazem é limitar a ação da imprensa. Veículos de comunicação também cometem equívocos, mas em respeito à lei e à ética tendem a imediatamente corrigi-los. Já dificultar a difusão de informações por quebra da lei que protege o sigilo é um ardil para calar os informantes. E não por causa de questões da vida privada mas do que tem de escuso na esfera pública. Fechado mais esse portal, aí a farra pública atravessará as madrugadas...





