A liberdade ameaçada - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 1999
J. Roberto Whitaker Penteado 
Com alguma frequência, os inimigos da liberdade apresentam-se à sociedade como bons samaritanos. Entre os seus disfarces preferidos estão (1) os de críticos ao sexo e à violência nos meios de comunicação, (2) os que fazem campanhas pessoais contra o fumo e os fumantes, os radicais (3) anti-aborto, (4) anti-eutanásia e (5) a favor da pena de morte.
Claro que, à luz da razão pura,cada um desses temas é, de fato, polêmico. Há muito lixo nas telinhas, hoje tanto da TV como da Internet; fumar, de fato, faz mal à saúde; aborto não é método anticoncepcional; nem a morte coisa que se trate de forma leviana.
O que identifica, entretanto, esses que eu chamo de inimigos da liberdade - e, portanto, gente perigosa - são (1) as posições radicais que assumem em relação a essas questões - eles estão sempre do mesmo lado, aqueles assinalados acima - e (2) a presteza com que manipulam informações, em especial estatísticas, para forçar seus pontos de vista.
Os exemplos seriam muitos, mas tomemos apenas alguns. Sobre violência na mídia, lia, recentemente, numa coluna do JB, números assustadores: as crianças vêem 8 mil assassinatos na TV até os 12 anos, 27 atos sexuais por hora (quando assistem a programação adulta) e passam, em média, 28 horas por dia diante da TV. É isso mesmo: 28 horas por dia. Ato falho, mas revelador.
Sobre o fumo, confesso que conheço o assunto um pouco acima da média, através de tarefas profissionais, que me fizeram ler, por exemplo, o volumoso relatório de 1964, de uma cirurgiã-geral dos EUA (era mulher, mesmo), recheado de análises estatísticas espúrias e pouco científicas. Mas fiquei sabendo, por exemplo, que nunca, em todos esses anos, estabeleceu-se relação de causa-e-efeito entre o cigarro e o câncer, mas sim que os fumantes têm mais probabilidades de ter câncer, como de ter muitas outras doenças - o que é de se esperar. E que a figura do fumante passivo é um mito que já foi desfeito em estudo promovido pela própria Organização Mundial da Saúde, que, contudo, restringiu sua divulgação.
Não quero mexer muito com os três últimos segmentos, até porque os antiaborcionistas podem ser perigosos para a saúde de quem os critica (eles têm matado gente, nos EUA). Basta lembrar que todos eles apresentam sempre um dos lados da questão, isto é: o fato de já haver vida no embrião, sem levar em conta em que condições o novo indivíduo nascerá; casos-limite de eutanásia, em que subsistem dúvidas sobre a possibilidade de sobrevida do paciente (os médicos sabem que, na esmagadora maioria dos casos, o sofrimento é prolongado desnecessariamente e, em muitos países - Brasil inclusive - já praticam discretamente a eutanásia) e os defensores da pena de morte sempre dão o exemplo do tarado que estupra e mata a sua filha ou a sua mulher - esquecendo da extrema falibilidade do Judiciário - e da Polícia - no Brasil, em especial.
Como já disse, seria eu paradoxalmente extremista se pretendesse generalizar que qualquer pessoa que critica a violência ou a exploração do sexo nos meios de comunicação - ou que tem a opinião de que as pessoas não deveriam fumar - seja um fascista puritano. Mas é muito significativo que todas as posições descritas no primeiro parágrafo têm, de alguma forma, como consequência, o cerceamento de alguma liberdade individual ou coletiva. Seja algum tipo de censura, ainda que disfarçado de controle, da comunicação; a proibição do consumo e da venda de cigarros - um passo de fazer o mesmo em relação a bebidas alcoólicas, por exemplo; restrições à liberdade do indivíduo ser o senhor da própria integridade física e a decisão de outorgar a um tribunal, ou ao Estado, a permissão legal de matar.
São todas variações sobre o mesmo tema: de que alguém possa saber melhor do que eu o que é melhor para mim - e, o que é pior, decidir em meu lugar. Pode haver ameaça maior à liberdade?
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro


