A língua alemã cunhou o substantivo masculino ‘‘kitsch’’ sem similar em nossa língua, mas que significa objeto de mau gosto, coisa cafona, sem valor ou brega. O adjetivo correspondente é ‘‘kitschig’’ - só para exemplificar, o velho pinguim de geladeira é um objeto kitsch.
Penso em como definir o homem deste final de século, não por puro apego a definições, mas por querer entender o meu tempo. Desconectados de nossa essência, em menos de cem anos aprofundamos o vácuo entre o nascer e morrer. Nunca, em tempo algum, as coisas (e nós mesmos) foram tão desprovidas de significado. Nossas lutas nas ciências, artes e todos os campos do conhecimento descambaram sempre para o inútil, para o kitsch. Conseguimos ‘‘evoluir’’ da música erudita para o som bate-estaca techno music. Do canto gregoriano para o pop americano. Das ‘‘Bachianas’’ de Villa-Lobos para a ‘‘Florentina’’ do Tiririca. Da filosofia acadêmica de um Kant para a filosofia de prateleira de supermercado de um Lair Ribeiro. Portanto, concluo que o homem do meu tempo é um ser kitsch, idólatra do inútil e do mau gosto, governado pela propaganda barata que lhe serve em baixelas cafonas infinidades de verdades que, em verdade, nada valem.
Mas antes de prosseguir devo confessar que errei. Havia previsto, aqui mesmo, que o brasileiro acordaria no dia 5 de outubro com um senhor pacotaço do governo federal servindo-lhe de travesseiro. Confesso este erro aparente. Embora sendo um pessimista militante, ainda acredito que o homem pode ser cínico por algum tempo, mas não por todo o tempo. Engano. Bárbaro engano. O cinismo hipócrita de Fernando Henrique Cardoso - nosso defensor perpétuo, cada vez mais amigo e conselheiro dileto de Deus - é algo ilimitado. O pacote vem sim, mas depois de terminado o segundo turno das eleições 98 em 12 estados da Federação, mais o Distrito Federal, neste final de semana. Não contente com a própria reeleição, FHC quer tirar o máximo de proveito de suas mentirinhas.
Eis aí aonde eu queria chegar: para tempos de cultos ao inútil e a coisas sem valor, nada melhor do que um presidente kitschig.
As viúvas do Real dizem que exagero ao classificar o nosso presidente sociólogo com adjetivo tão pesado. Mas que nome dar a quem, em plena campanha eleitoral, tenta esconder com uma peneira a debilidade de nossas finanças? Que nome dar ao homem que anuncia a criação de mais de 7 milhões de postos de trabalho em seu próximo governo e, passadas as eleições presidenciais, admite que há estudos para estender a validade do Seguro-Desemprego de seis meses para doze meses? - ou seja, o próprio governo prevê o crescimento do exército de desempregados e, para evitar problemas imediatos nos grandes centros urbanos, garante a ração básica por um ano destes pobres diabos. Que nome dar ao homem que aos olhos do mundo troca as penas de tucano pelas de um pavão-estadista e esconde que, em seu país, as pessoas estão condenadas à miséria, à fome e que se morre de doenças medievais, como o cólera?
Na falta de pinguim, nosso presidente kitsch se comporta como um tucano de geladeira. E penso que seja insuperável no mau gosto, uma geladeira vazia guardada por um tucano de bico-doce que canta tempo de abundância em tempos de desesperança.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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