Walmor Macarini
No Natal fazemos duas festas, uma pagã e outra cristã. A pagã é a do culto a Noel, e a cristã a da homenagem a Jesus. Noel é o dos presentes, Jesus é o da reflexão. Apesar da coincidência de data, Noel não tem vinculação histórica com o episódio de Belém. Noel é efêmero, Jesus é perene.
E Jesus, o que é para nós? Para a maioria, o mártir, que veio redimir os pecados dos homens; um ser sagrado, a quem devemos reverenciar e louvar, já que lhe entregamos todos os nossos fardos para que os carregue por nós, e como tal nos julgamos devedores da reverência. Para muitos, o líder, que dá sustento à pregação, e como tal um símbolo. E para uma mais silenciosa comunidade, o irmão mais velho, o mestre, que um dia vestiu nossa roupagem e veio nos visitar, coabitou conosco e compartilhou de nossa companhia um bom tempo, para também conhecer e vivenciar a aventura terrena e nos mostrar caminhos que ele conhecia melhor e por isso poderia torná-los mais amenos para nós.
Mas o que somos nós? Certamente que, se soubéssemos melhor o que somos, passaríamos a conhecer melhor Jesus e deixaríamos de atribuir-lhe valores tão diferenciados. Tiraríamos-lhe esse caráter de sacralidade e o traríamos mais perto de nossa intimidade, para conversar com ele em pé de igualdade, ao tempo em que o ajudaríamos muito no seu propósito de nos conduzir por caminhos mais suaves e nos ensinar os atalhos. Seria como o viajante a ajudar o guia em sua tarefa de guiar...
Acabamos entronizando Jesus num santuário, qual divindade com o dever de esparramar sobre a humanidade todas as graças e rodeada de adoradores. Dois mil anos se passaram e os homens que se declaram cristãos transformaram-se não em seguidores dos ensinamentos do Mestre, mas em seus adoradores. Apegaram-se mais aos milagres, que se operavam através dele – porque isto era o benefício, recebido de graça, ademais cercado pelo véu do indecifrável, do fascinante – mas não seguiram os caminhos indicados por Ele, porque esta era a tarefa difícil, que exigiria participação. Mais cômodo adorar e louvar, na espera do milagre para a saúde melhor, para a vida melhor, sem muito esforço pessoal, porque, se não der certo, terá sido vontade de Deus... Não é assim que dizemos?
Jesus certamente não queria adoradores, mas seguidores. Por isso disse que ele era o caminho, querendo dizer que era o modelo, que fizéssemos igual. Ao entronizá-lo, conferindo-lhe o halo da sacralidade, os homens distanciaram-se dele e prostraram-se em adoração. Elegeram-no salvador, não no sentido de que, pela prática de seus ensinamentos, chegassem aos caminhos da salvação (no sentido de plenitude de consciência), mas o salvador puro e simples que os eximiria de participação e de responsabilidade.
Mas afinal, o que somos nós? Somos iguais a Jesus, porque iguais na essência. Isto não fosse, e ele não nos teria dito. Somos seus irmãos mais jovens. Ele veio conviver conosco ‘‘aqui em baixo’’ por um certo tempo, mas em verdade nunca nos abandonou e nunca deixou de nos falar, porque ele tem nos tomado pelas mãos e nos dito, todos os dias: ‘‘Meninos, é por aqui! Este é o caminho!’’
Mas se os meninos não forem, será do livre arbítrio de cada um, e ele não interferirá nessa decisão. E não nos iludamos, porque à revelia de nossa vontade ele não salvará ninguém, eis que não é sua atribuição. O homem tem se iludido na crença de que imperam sobre ele divindades salvadoras, e por isso nunca se compreendeu em sua integralidade, perdeu-se em angústias e descrenças e chegou a abominar Deus, como injusto, não consciente de que ele é seu próprio salvador, porque carrega dentro de si todos os atributos de Deus. Sintonizado nesta verdade, aí sim ele alcançará a frequência onde habitam todas as divindades. E no fluxo dessa corrente verá que sempre esteve salvo e que a busca obstinada por salvadores é um acomodamento do homem.
Quando Jesus, em suas intermediações de cura, dizia ‘‘a tua fé te curou’’, queria nos mostrar que ele, por si só, não nos curaria; por extensão, que não nos salvaria, mas que só a nossa fé nos salva. E o que é a fé? É um estado de crença no próprio poder, uma vez que somos centelha de Deus. Certamente que nem Jesus e nem Deus moverão nossos passos se não estamos dispostos a caminhar.
Jesus nos disse: ‘‘...Não me considereis um ser transcendente tão longe de vosso alcance que se torne impossível qualquer contato, porque a presença divina que me habilitou a fazer a ascensão é a mesma presença que vos capacitará a fazer a ascensão como eu fiz.’’
Certamente que não devemos alimentar esperanças de sua ‘‘segunda vinda’’ e de que voltaremos a vê-lo caminhando pelo mundo, da forma como aqui andou. Porque na verdade ele nunca se foi e nunca se afastou de nós. Só os incrédulos esperam pela sua volta, pois lhes será necessário o milagre da presença, ou não crerão. Será preciso que lhe vejam a ferida e toquem nela... Os que crêem, estes já o têm e nunca o perderam de vista.

mockup