A lavagem de dinheiro
O livre fluxo de capitais financeiros acelerou o processo de lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais. O objetivo da lavagem é transformar em dinheiro limpo o dinheiro sujo, que vem do esgoto: corrupção política, tráfico de drogas, de armas nucleares. A comunidade financeira global aceita este tipo de transformação do dinheiro sujo em limpo, pois só assim o produto do crime poderá ser reutilizado.
O primeiro estágio da lavagem é sua inserção nas instituições financeiras, via Panamá, Aruba, Ilhas Cayman. Bahamas, St. Martin, Vanuatu, Luxemburgo e Áustria. No segundo estágio opera-se o escamoteamento dos rastros do dinheiro, de sua fonte de origem, evitando que ele seja pego em auditorias futuras. Como a globalização financeira proporciona o livre fluxo de capitais, este processo criminoso está mais fácil de ser concretizado. Basta apertar botões eletronicamente e o dinheiro voou para longe, para o outro lado do mundo. O terceiro estágio é a integração do dinheiro no mundo real, legal.
As sobras de dinheiro das campanhas políticas no Brasil, do dinheiro obtido por debaixo do pano, quando os empresários despejam recursos para cobrar a fatura quando o político estiver no poder, é a corrupção sistêmica. De onde vieram os recursos pagos aos deputados na compra de votos para a emenda da reeleição? A receita vai investigar esta ladroagem? A arrecadação do ICMS não demostra a corrupção? Vai ocorrer quebra do sigilo bancário? Se a compra operou-se neste caso, será que não se opera em outros? Quem detém o poder tende a abusar, e, como os beneficiados pela compra estão dominando o poder, as investigações oficiais não os atingem.
A rede criminosa global é cúmplice em diversos crimes conexos. O tráfico de armas, de drogas, necessita de pistas de pouso clandestinas e o Brasil, rota de muitos crimes globais, está apinhado de pistas clandestinas. O Brasil é a rota de fuga, nas barbas do conivente Estado-Nação. Jornalistas internacionais que venham comprovar, pelo bem do status quo da comunidade internacional. Fugas de capitais vão se avolumar dentro deste lamaçal.
E o dinheiro sujo-limpo vai em grande escala para a Suíça, que não é um paraíso fiscal, mas oficial da corrupção mundial. O crime organizado dos gabinetes encontra respaldo neste país que não entrou para a Comunidade Européia para continuar a dar guarida para os criminosos de colarinho branco, aceitos como legais.
As investigações internacionais necessárias devem se iniciar pelos bancos oficiais, dos paraísos fiscais. Hoje, eles soltam informações privilegiadas quando lhes interessa, em conluio com a imprensa, com os fiscais da lei. Rompem a privacidade com grampos telefônicos, e, pior, depois causam o vazamento de conversas telefônicas do passado, que ficam registradas nas companhias que foram privatizadas.
Muitos empresários brasileiros possuem somas vultosas no exterior, mas estão imunes, pois são financiadores de campanhas. É uma quadrilha criminosa da mais alta periculosidade. Como a crime organizado internacional é conexo, forma uma rede criminosa onde uma respeita a existência da outra.
O contrabando nuclear, com o desmantelamento da ex-União Soviética acelerou-se pelo mundo. Grupos terroristas estão próximos de adquirir coquetéis molotov nucleares, segundo pensamento de Felipe González, ex-primeiro ministro da Espanha, em jornal brasileiro. Segundo o alemão Hans-Ludwig Zachert, o comércio ilegal de material radioativo está em franca ascensão.
Os contrabandistas estão carregando o material no próprio bolso. Segundo a ONU, em 1992 foram registrados 158 casos; em 1993, 241 casos; com o indiciamento de 545 suspeitos, tchecos, poloneses e russos. Em 1994, a Polícia alemã apreendeu 350 gramas de plutônio enriquecido com um colombiano e dois espanhóis, que foram presos. Onde está o resultado do roubo de material radioativo da base nuclear de Padilski? O lixo radioativo dos submarinos russos está sendo contrabandeado pela fronteira oriental sem a menor fiscalização. A nova corrida armamentista não eliminará o risco, pois triplicará no futuro!
O Peru e a Bolívia já elevaram sua produção de coca em consequência direta do Plano Colômbia. No Brasil, faz-se necessário urgente implosão de todas as pistas clandestinas de aviões, mesmo que destruam as bases de vôo para carregamento de dólares empresariais enviados para o exterior. Os aviões que levam drogas voltam carregados com outros produtos do crime organizado internacional. Como as prisões brasileiras estão repletas de traficantes de drogas e o tráfico é uma rede organizada...
Urge impedirmos a produção do crime organizado dos gabinetes, da lavagem de dinheiro, para sobrar recursos para investimentos sociais, para aliviar o sistema prisional brasileiro e sua explosão!
- FERNANDO MARREY é advogado em São Paulo
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