A Lava Jato é só o começo
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terça-feira, 21 de maio de 2019
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Quando a Lava Jato foi deflagrada em 17 de março de 2014, a maioria dos brasileiros não imaginava que aquela operação, que em sua primeira fase investigava a atuação de doleiros na movimentação de valores de origem ilícita, se tornaria a maior investigação de corrupção da história do País. Ainda em curso, a Lava Jato desencadeou mais 60 fases e colocou atrás das grades políticos e empresários poderosos. Quando a sociedade percebeu a grandiosidade da operação, uma pergunta surgiu: onde a Lava Jato vai parar? A esperança de que a operação consiga realmente causar uma depuração na classe política e empresarial acompanha o sentimento do cidadão há cinco anos.
Na edição do último fim de semana, a FOLHA entrevistou o delegado aposentado da Polícia Federal Gerson Machado, de Londrina. Ele é o autor do inquérito que, em 2008, reuniu informações de que um posto de gasolina de Brasília era usado para lavagem de dinheiro por meio de notas frias. Os investigados desse inquérito - uma espécie de embrião da Lava Jato - foram o doleiro Alberto Youssef e o ex-deputado José Janene, que morreu em 2010.
Vivendo hoje, com a família, em Portugal, Machado contou como vem acompanhando o desenrolar da operação policial mais famosa do Brasil e a série lançada pela Netflix, “Mecanismo”, que cria uma versão ficcional dos desdobramentos da Lava Jato. O depoimento de Machado foi tomado pela equipe do cineasta José Padilha e se tornou o fio condutor da história.
Em declaração à FOLHA, Machado resume as relações ilícitas entre políticos e empresários, tão evidentes nas dezenas de fases da Lava Jato: “O que vejo na política é um teatro em que os políticos são marionetes de quem financia a campanha deles”. O resultado dessa relação criminosa, todos conhecem. Ele pode ser resumido na corrupção sistêmica que derruba a economia e prejudica setores importantes como saúde, educação, segurança, logística, entre outros.
O homem que fez as primeiras investigações que deram origem à Lava Jato é categórico quanto ao sucesso no processo de combate à corrupção no Brasil. Para ele, só a participação da população e uma construção de cidadania será capaz de concretizar as mudanças tão necessárias. Há quem pense que cidadania é simplesmente o direito de votar e ser votado. Ao contrário, é um conceito muito amplo que implica em ter ciência dos direitos e deveres e consciência das responsabilidades enquanto parte integrante da coletividade. A diferença só virá com a participação do cidadão na sociedade.


