A lama da corrupção escorre pelas ruas - Vilson Antonio Romero
A lama da corrupção escorre pelas ruas
Vilson Antonio Romero
O cidadão Edson Arantes do Nascimento desabafou, horrorizado com o mar de corrupção que se espraia pelas plagas da brava gente brasileira. Uma revista nacional deu destaque de capa aos horrores da propina e das relações promíscuas dos agentes públicos e privados, em prejuízo do bem comum e das res publica (coisa pública). E nós permanecemos perplexos, inertes, perante os milhares de denúncias que emergem todos os dias.
O governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, demitiu seu secretário de Justiça, Antonio Oliboni, por ter firmado, como advogado, em 96, contrato de honorários de mais de R$ 754 mil, com a fornecedora de refeição para os detentos daquele Estado, sob custódia da sua secretaria. No mesmo Estado, o presidente da Companhia Estadual de Habitação, Eduardo Cunha, está sendo acusado de favorecer a empresa paranaense Grande Piso em quatro licitações para participação no maior projeto habitacional do RJ, o Conjunto Nova Sepetiba. O irmão do senador goiano Íris Rezende, Otoniel Carneiro, é o principal acusado do desvio de R$ 5 bilhões da Caixa Econômica de Goiás, que foram utilizados, segundo o Ministério Público daquele Estado, na campanha eleitoral de 98.
Um vergonhoso bate-boca público entre os senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL/BA) e Jader Barbalho (PMDB/PA) enodoou ainda mais a imagem do Congresso e seus ocupantes, com acusações recíprocas de corrupção. Jader atribui a ACM a construção de sua fortuna pessoal às custa dos cofres públicos e lembrou escândalos como os da Pasta Rosa e das doações de campanha feitas pelo Banco Econômico com a interveniência do senador baiano. Já ACM ligou Jader à desapropriação de terrenos inexistentes no Pará e ao superfaturamento de indenizações de propriedades rurais, além de mencionar irregularidades em sua passagem no Ministério da Previdência, em 1985.
Outros exemplos: os desembargadores federais Paulo Theotonio Costa e Roberto Haddad, de São Paulo, respondem a inquérito no STJ, que apura indícios de enriquecimento ilícito, e o FBI investiga a ligação do empresário Flávio Maluf, filho do ex-prefeito de São Paulo, com o empresário Oscar de Barros, preso recentemente em Miami sob a acusação de lavagem de dinheiro. Basta de corrupção? Não, não basta! A lista continua...
A Procuradoria Geral do município de São Paulo vai a Justiça tentando anular contrato de prestação de serviços entre o Plano de Assistência à Saúde e o Hospital da Saúde. Segundo os procuradores, o contrato de R$ 5,8 milhões é ilegal e apresenta fortes indícios de superfaturamento.
Ainda na capital paulista, o maior escândalo da hora envolve o prefeito Celso Pitta. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quer o impeachment do prefeito, sob suspeita de improbidade administrativa, desencadeada pelas denúncias bombásticas de sua ex-mulher, Nicéa. A OAB fala em falta de providências no caso das propinas dos fiscais municipais, na contratação de funcionários fantasmas na empresa pública Anhembi, na compra de votos na Câmara e na relação suspeita com o empresário Jorge Yunes, entre outros pontos.
Já no âmbito da corte brasiliense, o STF determinou a abertura de inquérito para investigar o envolvimento do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, do ex-presidente do BNDES, Andrea Calabi, e do presidente da CEF, Emílio Carrazai Sobrinho, na remessa irregular de recursos para o exterior.
Se acrescentarmos a tudo isto as notícias mais antigas sobre o caso Sivam, sobre o Dossiê Caribe, ainda não esclarecido na Polícia Federal, que envolve o presidente FHC e o governador Mário Covas, sobre as eternas denúncias de policiais envolvidos com o narcotráfico e com as propinas que acobertam o jogo do bicho, a situação nos atordoa e apavora.
Se pensarmos que em casa momento somos ameaçados com a falta de prestação dos serviços públicos se não facilitarmos ou fazermos o pagamento por fora, seguindo o mau exemplo do governo federal que libera verbas ou cargos mediante aprovação de medidas impopulares, o nosso medo de andar na rua aumenta.
Apesar de tais fatos se caracterizarem como exceções dentro de corporações como fiscais, policiais, médicos, parlamentares, administradores públicos, muito nos preocupa a ocorrência frequente, que facilita a generalização de condutas impróprias.
É hora de, como disse Pelé, darmos um basta à corrupção! Comecemos pedindo folha corrida dos políticos canditados nas próximas eleições. Continuemos com uma legislação mais severa na punição aos crimes de colarinho branco, mandando para a cadeia corruptores e corrompidos. Façamos uma corrente e uma campanha de moralização dos entes públicos e seus agentes, reduzindo radicalmente a aplicação da Lei de Gérson nos diversos estamentos da sociedade brasileira. Se não fizermos, cada um de nós um pouco, resistindo a ilicitude na vida privada e pública, em não muito pouco tempo estaremos afogados num mar de lama que escorrerá pelas ruas e submergirá nossa Nação.
- VILSON ANTONIO ROMERO é jornalista e auditor fiscal em Porto Alegre





