É desconcertante o rumo da discussão que a descoberta da vacina contra a Covid-19 segue no Brasil. Conforme as notícias dão conta do sucesso no avanço das pesquisas por um imunizante que pode colocar um fim na sequência trágica de mortes pelo mundo todo e na angústia de um ano vivido sob quarentena, por aqui o debate ganha força em duas frentes: a obrigatoriedade ou a não obrigatoriedade de se tomar a vacina.

A questão ganhou força na semana passada muito mais por uma disputa política entre o governador João Doria, de São Paulo, e o presidente Jair Bolsonaro. Primeiro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou acordo para aquisição das vacinas produzidas pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, ligado ao governo paulista.

No dia seguinte, Bolsonaro mandou o ministério voltar atrás na compra das doses do imunizante até que haja comprovação de eficácia. Declaração que levantou muitas críticas por dois aspectos. Primeiro é a que a Anvisa não liberaria o uso no Brasil de uma vacina sem comprovação de eficácia. Segundo: ao defender, anteriormente, a cloroquina no combate ao coronavírus, o presidente não mostrou preocupação com a comprovação científica do uso do medicamento no tratamento da Covid-19.

Nesta semana, a polêmica alcança outros níveis e dá sinais de que vai chegar ao poder judiciário. Enquanto o ministro Luiz Fux, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) declara acreditar que haverá uma “necessária judicialização” da obrigatoriedade da vacina contra a Covid, o presidente da República rebate que a obrigatoriedade do imunizante não pode ser decidida pela Justiça.

Não houve ainda manifestação pública dos magistrados sobre a obrigatoriedade da vacina contra a Covid. Mas há em curso no STF uma ação que julga se os pais devem ser obrigados a vacinar seus filhos menores de idade. O ministro Luís Roberto Barroso, relator desse caso, costuma fazer, em seus votos, uma defesa enfática da ciência.

Em uma crise sanitária como a da Covid-19, pode uma pessoa resistir à vacina mesmo tornando-se um vetor de risco para a proliferação da doença em sua comunidade? Essa é uma pergunta que a sociedade não pode deixar de fazer. E qual seriam as consequências, para as relações internacionais, se o Brasil fracassar no programa de imunização contra a Covid-19?

Não é uma solução simples. Mas é preciso levar em conta que a vacinação é, sim, um tratamento individual. Mas o sucesso depende do seu uso coletivo.

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