A irracionalidade da ditadura ambiental
Marcos Pagani
A matéria publicada em opinião, do caderno Paraná e Santa Catarina da ‘‘Gazeta Mercantil’’ de 13/1/98, sob título ‘‘invasão da estrada deve ser punida’’, e outros tantos artigos que temos visto por aí, são um exemplo eloquente da ditadura ambientalista que alguns revisionistas ainda pretendem implantar em nossa terra.
Para fazer valer seus argumentos não temem usar de manipulações intelectualóides e impropriedade técnicas. São articulistas assinando por grupos etéreos que pretendem representar.
A infelicidade desses artigos deve-se, em primeira leitura, ao desconhecimento dos seus autores tanto sobre a realidade social do Oeste paranaense como a do próprio Parque Nacional do Iguaçu. Não há nada mais nativista, no oeste do Paraná, que o grito popular unânime pela reabertura do histórico Caminho do Colono, e os pretendentes a ditadores, como acontecia na recente história brasileira, se encastelam distantes do local dos fatos. Pretensos donos da verdade representam o primitivo pensamento ambientalista radical, falido em todo o mundo, da preservação pela preservação, alienada dos seus fins sociais, hoje mundialmente reconhecidos. Seus últimos representantes desesperam-se, em verdade, na sua própria preservação.
Infelizmente não há maior exemplo de descaso e relaxo do serviço público a mostrar para o mundo, em potencial à Unesco, que o estado atual do Parque Nacional do Iguaçu. Isto é evidente, por exemplo, nas sobras do museu do parque, onde não existem mais, e faz tempo, as amostras da sua variedade botânica e faunística (que não se pode contemplar in natura), assim como não existem mais informações elementares sobre o que é o parque, por que ele existe, por que deve ser preservado. Todas as instalações do parque estão mal conservadas, a começar pelo próprio piso daquele edifício (que também é o da sede do parque), os corrimãos das passarelas, o elevador, as instalações sanitárias etc. - vistas por milhares de pessoas todos os meses. Só desconhecendo esta infeliz realidade um articulista diria que aquele parque é o mais bem organizado do país.
Há mais: se a ala da frente é assim, imagine-se a área de serviço. Se a minúscula área que rende ao parque uma receita diária considerável é tratada daquela maneira, o restante do parque está ao mais completo deus-dará. Como, então, compreender que o parque não tenha sido invadido em seus quase 400 km de divisas - como aliás aconteceu no restante dos parques nacionais brasileiros?
A única resposta está no bom caráter e na confiança, na palavra emitida pelos municípios, das comunidades que o cercam. Aquela gente tem pelo parque um grande respeito que, de forma nenhuma, lhe tem sido retribuído pelo Poder Público que administra o parque. Aquela unidade de conservação, por sinal, mais conhecida como Parque das Cataratas, porque é a única coisa que dele se conhece, sequer conhece seus (quem sabe?) tesouros e riquezas naturais de valor incalculável!!
Situação similar ocorre com os municípios de seu entorno, que só têm tido problemas com o parque. Apesar daquele lhes impedir o desenvolvimento, lhes cobra serviços e favores, tudo em uma única mão. Quando solicitam do parque até mesmo a simples abertura para que suas comunidades possam ali desenvolver atividades de educação ambiental, ouvem como resposta um não sonoro: o Plano de Manejo não permite.
O que é lamentável é que o Ibama, que pertence ao ministério que sustenta aqueles poucos ambientalistas, nunca recebe deles o apoio que lhes permita adotar medidas pragmáticas, de alcance social efetivo que, ao gerar uma relação de correspondência e envolvimento dos parques com as sociedades que o envolvem, proporcione a sua perpetuação. Foi pela falta de uma abertura para as comunidades do entorno que outros parques desapareceram, transformando-se em letra morta (ainda que convenientes para as estatísticas).
Não é mais possível alguém achar que o Parque Nacional do Iguaçu possa subsistir ignorando os anseios das comunidades que o cercam. As autoridades que foram chamadas a cumprir o desejo dos ditadores ambientais tiveram o discernimento e o bom senso de considerar as implicações sociais da questão. Prudentemente aguardaram e colheram bons frutos deste procedimento.
A disposição das comunidades em atentar para acordos com o Ibama tem um limite, e este chegou ao fim, depois de constatar um tipo de falta de caráter do Ibama, visível pela postergação contínua em iniciar a elaboração do Plano de Manejo, agora mais uma vez empurrado para uma data qualquer, daqui a seis meses. Mais que descaso, isto demonstra incompetência, o que contrasta duramente com a consideração e a competência das populações envolvidas.
- MARCOS PAGANI é coordenador da Associação de Integração Comunitária Pró-Estrada do Colono (Aipopec).

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