A invasão é um ato de guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 1997
Cláudio Slaviero 
Movimento dos Sem-Terra, o MST. Sigla interessante, porém, deveria ser MSL: Movimento dos Sem-Lei. Ou MFL: Movimento dos Fora-da-Lei, porque a Lei existe, mas não está sendo cumprida.
E por que não?
No último final de semana, por exemplo, uma propriedade rural da minha família, em Nova Cantu, no Sudoeste do Estado, foi invadida.
Devo esclarecer ao leitor que esta propriedade nada tem de improdutiva - muito pelo contrário, temos estas terras há gerações, fomos pioneiros e cuidamos muito bem delas.
Até hoje esta propriedade a qual me refiro só gerou empregos, riquezas - inclusive para o Governo do Estado, pois todos os impostos estão em dia -, e alimentos. Com que direito, então, estes fora-da-lei invadem, cortam cercas, expulsam o caseiro e sua mulher grávida, tomam sua casa e exigem até a retirada do gado?
Não pensem, então, que sou um latifundiário usurpador, querendo fazer pressão contra alguns pobres coitados que querem ter suas próprias terras.
Eu sou totalmente a favor da reforma agrária. Mas uma reforma consciente, sem gerar toda esta violência e, principalmente, em terras realmente improdutivas. Porque uma fazenda de pecuária nada tem de improdutiva (como alguns querem sugerir). Ou então deveríamos todos virar vegetarianos...
Sou a favor, sim, de uma reforma bem estruturada no campo, bem fiscalizada, bem conduzida. E não esta desordem que se instalou neste governo.
O presidente da República e o nosso governador deveriam tomar mais cuidado com este populismo todo que estão fazendo em cima do assunto, esta verdadeira manipulação em torno dos sem-terra. Isto pode ser uma verdadeira faca de dois gumes, um expediente muito perigoso com o único intuito de desestabilizar o governo.
Chego a pensar que os desamparados somos nós, pois este não foi um caso isolado. Muito pelo contrário. Já estamos cansados de ver estas invasões acontecerem, sem o mínimo controle ou coordenação. Não é, com certeza, este tipo de reforma que vai dar certo.
O Brasil é um país muito grande, é verdade, e com enormes diferenças entre as classes. Mas isto não dá a ninguém o direito de sair invadindo o que é dos outros, sejam terras, casas, o que for... é como se, de repente, os moradores das favelas resolvessem invadir casas e saquear supermercados e shoppings-centers.
E o governo tem medo de quê, afinal? Um governo que tinha tudo para dar certo está sendo duramente desmoralizado com estas claras demonstrações de total falta de respeito aos direitos do próximo, ao cumprimento das leis, demonstrando um descaso absurdo com a Ordem e o Progresso. Isto tudo está se tornando um verdadeiro deboche.
Corremos o risco de ver nosso Estado e o nosso País transformados num caos total, pondo em risco o êxito até aqui conquistado pelo Plano Real. O presidente disse uma vez que somos todos caipiras. Eu me orgulho disso, a medida em que pertenço a uma família de fazendeiros, de pioneiros, de desbravadores.
Nós temos esta tradição. Esse negócio de ser fazendeiro não é brincadeira de desocupados, nem de comerciantes que param seu carro ao lado do barracão do MST para ver se levam uma terrinha. Levar um pedaço de terra adiante é para quem tem os pés no chão e, bem intencionado, quer mesmo trabalhar. É deste legítimo sem-terra e de seus legítimos direitos que sou a favor. Mas, apesar da boa vontade destes, é muito difícil subsistir, pois não existem políticas adequadas de produção, de juros ou de comercialização de produtos.
Já vi muitas vezes, com imensa tristeza, legítimos pequenos proprietários levando a penhora das suas terras aos bancos. Este pessoal que pensa que pode tudo tem que levar um basta. Chegam a invadir ministérios, gabinetes, órgãos públicos...
Então é isto que chamam de democracia? Tenho medo às vezes até de preferir a ditadura, se ela for capaz de frear esta baderna toda e dar a chance de podermos trabalhar e produzir em paz.
O Brasil precisa é de mais respeito à autoridade, às leis, à propriedade de todos nós, para podermos prosperar em paz.
Ou corremos o risco de uma guerra civil - que é algo que ninguém, em sã consciência, desejaria, mas que parece mais próximo a cada dia, com a inoperância das autoridades brasileiras.
Afinal, invadir é um ato de guerra. Ou não é?


