A internacionalização do ensino superior na América Latina e Caribe
Em 2008, na cidade de Cartagena de Índias, na Colômbia, foi realizada a Conferência Regional da Educação Superior (CRES), evento preparatório para a Conferência Mundial, organizada pela Unesco, para discutir o futuro da educação superior no mundo. Encontramo-nos, agora às vésperas da CRES2018, que colherá subsídios para a Conferência Mundial a ser realizada em Paris em 2019. A organização da Conferência, que será sediada em Córdoba, Argentina, de 11 a 15 de junho de 2018, vem realizando uma série de discussões e encorajando propostas com vistas ao futuro das instituições de ensino superior na América Latina e Caribe. Permanecem atuais grande parte das recomendações, inclusive a de que a integração acadêmica latino-americana e caribenha é uma tarefa inadiável e necessária para criar o futuro do continente.
Na última década intensificou-se essa necessidade, em vista do acirramento da lógica mercadológica e de competitividade que vem ganhando mais espaço no discurso público. A desejada integração, a ser estrategicamente facilitada pelas redes de instituições de ensino superior, tem por objetivo "unir e compartilhar o potencial científico e cultural para análise e propostas de problemas que não reconhecem fronteiras" (documento da CRES2008) e que, por isso mesmo, requerem soluções supranacionais. Naquele momento, a visão almejada era a de que redes nacionais e regionais formassem um importante instrumento para criação de sinergias em áreas onde a colaboração internacional é vista como um imperativo para superação das assimetrias e produção do desenvolvimento sustentável. Faz-se necessário fortalecer uma perspectiva que reforce os anseios de integração regional diante de demandas de alinhamento com processos de internacionalização de cunho neoliberal.
De fato, na última década, a internacionalização do ensino superior adquiriu maior visibilidade e se tornou uma importante ferramenta estratégica para alcance dessa integração regional; contudo, esse processo também se coloca, por vezes, em tensão com os parâmetros ditados pelos países do Norte global, cujos propósitos e resultados podem afastar-se daquilo que é central para o desenvolvimento sustentável de nossa região. Na consideração de como a internacionalização é parte do imaginário da globalização, não podemos nos esquecer de sua origem colonial para não incorrer no risco de reprodução de lógicas que perpetuam causas de nossos problemas.
Encontramo-nos, portanto, diante de um contexto que requer reflexões emergentes da identidade latino-americana e caribenha. Internacionalizar sim, mas a partir de uma perspectiva nossa, que implica aproximar-se de uma tentativa de conciliação de objetivos de integração regional com a inserção global.
Considerando que um forte viés de mercado e de mercantilização tem caracterizado os processos de internacionalização do ensino superior, especialmente nos contextos onde a educação se coloca como serviço e não como direito, é essencial reafirmar os valores que têm sido defendidos desde a II CRES: a educação superior como um bem público social, um direito humano e universal e um dever do Estado.
Endossamos, portanto, a internacionalização como uma estratégia para o desenvolvimento sustentável e para promoção da inclusão social e integração regional. Não se pauta pelos princípios de competitividade e sim de cooperação, devendo buscar a melhoria de condições de vida para toda a coletividade, dentro de parâmetros éticos e humanistas. A internacionalização não deve ser um fim em si mesmo, mas servir como instrumento para o alcance de uma educação superior como espaço de conhecimento e de produção científica, tecnológica e cultural a serviço de geração de riquezas, da diminuição das desigualdades sociais, do fortalecimento de identidades culturais e de promoção de justiça social em uma cultura democrática e de paz.
TELMA GIMENEZ é professora universitária e assessora de Relações Internacionais da UEL
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