Quem, em sã consciência, seria capaz de trocar por erros os seus acertos, de desprezar como tolices as suas atitudes mais elogiadas, e de submeter-se voluntariamente às decisões de outros, ainda que estas signifiquem prejuízos para sua própria vida e a perda de sua dignidade e de sua capacidade de autogovernar-se?
Pois é dessa maneira alucinada que procede o governo brasileiro, ao permitir, e mesmo estimular, a morte de um dos programas mais sérios e bem sucedidos já realizados neste país, e que foi capaz de demonstrar ao mundo a criatividade, o espírito de luta e a capacidade de trabalho de nosso povo, mesmo nas situações mais adversas: o Programa Nacional do Álcool.
Desde sua criação, em 1975, como reposta genuinamente nacional ao desafio mundial lançado pelo primeiro choque do petróleo, em 1973, o Proálcool foi, e continua sendo da mais vital importância para a economia brasileira, tendo gerado mais de um milhão e quinhentos mil empregos, ajudando a fixar o homem no campo e evitando que se agravassem ainda mais a já tão drástica situação da agricultura brasileira e os conflitos fundiários no país.
Mesmo encarado sob a fria ótica dos critérios de avaliação econômica, pode-se constatar claramente que o Proálcool foi um ótimo negócio para o Brasil, pois os investimentos nele realizados, de cerca de onze bilhões de dólares, foram mais do que compensados com a economia de mais de vinte e sete bilhões de dólares na substituição das importações de petróleo, sem contar o colossal montante de impostos arrecadados pelos governos estaduais e federais, ao longo de todo esse tempo, em razão do significativo crescimento das atividades realizadas pela indústria alcooleira.
Além dessas inquestionáveis vantagens econômicas, há também aquelas de quantificação mais difícil, mas que nem por isso deixam de ser da mais capital importância para nossa população, como por exemplo a redução de mais de cinquenta por cento dos níveis de poluição atmosférica nas grandes cidades brasileiras, por causa da utilização de veículos automotores exclusivamente alimentados a álcool e de gasolina aditivada com vinte e dois por cento de álcool anidro.
Aliás, nesse particular, somos considerados pelas maiores autoridades internacionais em combustíveis renováveis como o país que introduziu o uso da gasolina reformulada no mundo, reduzindo aos menores patamares possíveis a emissão de gases altamente poluentes, como os hidrocarbonetos voláteis.
Recebemos, por isso, congratulações dos países mais avançados e preocupados com a preservação de seu ambiente e a melhoria da qualidade de vida de seus cidadãos. Tais países buscam copiar nosso programa do álcool, de modo a conseguirem para si os resultados que há muito tempo vimos obtendo.
Apenas como exemplos, citemos a Suécia, país onde já existem frotas de ônibus movidos a álcool, e que deverá ter quinze por cento de seus transportes movidos a combustíveis renováveis - principalmente o etanol - até o ano 2010; ou mesmo os Estados Unidos, cuja produção anual já atinge os cinco bilhões de litros de álcool, podendo chegar, no ano 2020, a mais de cinquenta a três bilhões de litros, ou cerca de três e meia a atual produção brasileira!
Enquanto isso, no Brasil, parecemos fechar os olhos a tudo e a todos e caminhar a passos largos de volta ao passado - um passado de agressão ao meio ambiente, de escassez de energia e de dependência externa. Prova disso é que, no último mês de março, das cerca de cento e trinta e seis mil unidades produzidas pela indústria automobilística do país, apenas cem - menos de um milésimo da produção - eram veículos movidos a álcool.
Ora, se temos uma tecnologia de ponta na produção de álcool, elogiada e copiada pelas nações mais desenvolvidas; se temos uma vastidão de terras agricultáveis, clima favorável, grande produção de cana, uma rede de distribuição de dimensões nacionais já instaladas, e se é o álcool o combustível do futuro, renovável e não-poluente, porque é que continuamos insistindo em virar as coisas a tudo isso e abandonamos um programa vitorioso, permitindo que ele finde por absoluta falta de apoio?
Isso é uma absurdo, um completo desatino! Um tal descalabro, capaz de provocar a indignação de todas as pessoas sérias e interessadas no progresso desse país, só pode ser explicado se nossas autoridades estiverem todas vendidas às multinacionais do petróleo.

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