A inspeção veicular inteligente - Gerson Luiz Koch
A inspeção veicular inteligente
Gerson Luiz Koch
Nós brasileiros, como de resto todos os habitantes de países desenvolvidos, vamos ser obrigados a realizar a propalada inspeção veicular (Controle Técnico ou Inspeção Técnica como é chamada em outros países), de acordo com o Artigo 104 do novo Código Nacional de Trânsito, Lei Federal 9.503/97, já a partir do ano que vem.
Felizmente optou-se por verificar o estado de manutenção e funcionamento de nossos automóveis e não simplesmente considerar o ano de fabricação como se chegou a cogitar, impedindo a circulação de veículos com mais de 10 anos. Quem não conhece alguém, vizinho ou parente, que trata seu veículo com inimaginável zelo e carinho, fazendo com que a máquina, independentemente da idade e da quilometragem rodada trasborde saúde e segurança? O inverso também é verdadeiro: não é raro toparmos com veículos seminovos em idade em lastimável estado de conservação.
Assim, torna-se imprescindível que coloquemos em prática alguma maneira de verificar se nossos meios de transporte oferecem as mínimas condições de segurança a nós mesmos, nossas famílias e principalmente aos outros ocupantes das vias públicas, a quem poderemos atingir por conta de sistemas de freio ou de direção defeituosos.
Essas inspeções são rotina em praticamente todos os países desenvolvidos. Na França, por exemplo, onde em 1998 foram efetuados 17,4 milhões de controles, realizados em 3.094 centros especializados, essa medida é obrigatória para todo veículo que atinge três anos e meio a contar do dia em que entrou em circulação e, a partir dessa data, a cada dois anos. Para que uma transferência de propriedade de veículo seja concretizada é compulsória a apresentação de controle efetuado a menos de seis meses.
Naquele país, a inspeção é realizada visualmente, com ajuda de aparelhos, sem desmontagem. Verificam-se 133 pontos do automóvel, compreendendo dez funções principais, como por exemplo, identificação (placas, número de chassi, hodômetro, apresentação geral etc.); sistema de direção (folgas, ângulos de curva, geometria, estado das articulações etc.); sistema de frenagem (freio de serviço, freio de estacionamento, pastilhas e lonas, líquidos, discos, tambores, hidráulicos etc.); componentes mecânicos (motor, carburador ou injetor, escapamento, transmissão, reservatórios, caixa de mudanças etc.); ligações ao solo (suspensão, pneus, amortecedores etc.); visibilidade (pára-brisas, retrovisores, limpadores de pára-brisas etc.); iluminação (regulagem dos faróis, indicadores de direção, luzes de freio etc.); carroceria (portas, capôs, pára-choques, pára-lamas, chassi etc.); poluição (emissão de gases e sonora); equipamentos (bancos, cintos de segurança, buzina etc.).
Se alguns dos itens considerados vitais apresentarem defeito ou mau funcionamento, o veículo é convocado para uma contravisita, com prazo determinado para comprovar o efetivo reparo.
Existem vantagens e justificativas para adotarmos medida semelhante no Brasil? Sim, existem, e são inúmeras. Algumas das principais são: melhor conhecimento por parte do proprietário do estado real de seu automóvel; garantia de termos circulando em nossas vias públicas somente veículos com condições para tal; certeza de que ao adquirirmos um carro usado não estaremos comprando gato por lebre; melhor conhecimento do estado geral do parque de automóveis do país, por estado, por região etc.; conhecimento de defeitos típicos por marca e ano de fabricação, possibilitando a manutenção preventiva eficaz; possibilidade para os fabricantes da eliminação na linha de montagem ou nos projetos de problemas recorrentes; possibilidade de dar ao consumidor muito mais conhecimento de causa na aquisição de um veículo novo ou usado; aumento exponencial da segurança nas vias de circulação; diminuição na mesma proporção da emissão de gases poluentes por motores mal regulados; condições ao consumidor de saber quais são realmente os carros seguros e confiáveis, independente do tamanho das verbas publicitárias.
Este serviço não é gratuito. A utilização correta dos frutos dessa arrecadação é talvez o mais significativo benefício desta medida. O que seria uma utilização correta desses recursos? Um país e seu povo só podem ser considerados desenvolvidos, quando resolvem seus problemas básicos alimentação, alfabetização, moradia, saúde e emprego e na medida em que sejam capazes de gerar seu próprio desenvolvimento, rompendo ou diminuindo laços de dependência de outros países. Para isto, uma nação precisa investir pesadamente em pesquisa e desenvolvimento. É por isso que devemos nos organizar para que os recursos gerados pelo controle veicular sejam integralmente aplicados em ciência e tecnologia.
- GERSON LUIZ KOCH é doutor em gestão de projetos na indústria automobilística e diretor do Paraná Tecnologia, em Curitiba





