A insegurança e a impotência
O assassinato do prefeito de Santo André nos estarreceu mais uma vez. Os bandidos são cada vez mais ousados e buscam seus alvos longe da singela compreensão de nossos raciocínios. Embora não saibamos as verdadeiras motivações do sequestro - e isso nada interessa para o efeito - já sabemos o essencial: os matadores não obedecem qualquer código!
Abrigados num clima terrível de impunidade e corrupção a vários níveis, eles são os donos da liberdade. Reféns somos nós em nossas casas! Rodeados de cães e grades, com direito à pose de pobres vigias, aí estamos morrendo de medo de quem domina o ermo! O Brasil dos presídios de segurança máxima onde pousam helicópteros e excesso de população presidiária, está mais uma vez na maior de todas as sinucas! Constrói mais casas de detenção? Aumenta o contingente de policiais? Mune as policias de sofisticado armamento? Recorre à prisão perpétua? Discute a pena máxima? Todas as alternativas podem estar certas, mas a questão de segurança continuará munindo nossos noticiários!
A revista Veja desta semana fala nos 23 milhões de brasileiros de miseráveis que ainda resistem aos programas nacionais anti-pobreza! O que isso tem a ver com o problema em questão? Será que os sequestradores matam para comer?! É óbvio que a questão não passa por essa análise superficial. Os sequestradores são ricos e muito do dinheiro desses crimes já tem destino certo! O narcotráfico há cerca de um ano mostrou o lado escuro de Campinas. Depois disso, o prefeito já foi assassinado. E agora essa bela cidade volta a ocupar destaque nacional com as amplas, ostensivas e previamente divulgadas blitze policiais! Sequestros, drogas, pobreza, miséria, corrupção, impunidade; todos os filhos de um país que não enxerga seu problema umbilical - a progressiva e nefasta má distribuição de renda que cria mágoas históricas e gera a relativização da ética a qualquer nível.
A mãe pátria maltrata seus filhos e os empurra para a criminalidade. A desestruturação da família levada a cabo por programas televisivos e radiofônicos faz o resto! Vivemos tempos de impasse e de imperiosa reflexão sobre nossos valores, que com certeza nos remeterão para uma paciência história, consequência da gravidade a que deixamos chegar a situação, mas acompanhada de uma também indignação a que não estamos muito habituados.
Mais presídios ou policiais na rua ou até a instituição da pena de morte serão todas medidas paliativas num país que vê chegado o momento de repensar seu modelo de vida. A situação da maioria de nossas polícias por esse Brasil afora é sem dúvida a decorrência lógica de ausência de políticas de segurança pública, que coloquem em prática mecanismos de valorização da vida do policial e de suas motivações. Um salário digno e condições de trabalho dignas que o valorizem enquanto ser humano e lhe permitam resgatar a credibilidade junto da população, bem como uma corregedoria eficiente, são um ótimo começo.
É equívoco fatal pensar que a população se pode armar ou que alguém possa inventar milícias armadas para combater o crime! Na primeira, criam-se arapucas onde o próprio será a vítima; na segunda, retiraremos definitivamente da responsabilidade do Estado a segurança do cidadão, o que é um problema bem maior! Cobrar dele, sim! Todas as manifestações nesse sentido devem ter o apoio da população. Afinal os nossos impostos nos garantem esse direito! Ou deveriam! A entrega graciosa do troféu do mais assaltado é um sui generis protesto que deveria intrigar a quem de direito.
Me intriga a sensação de derrota e de impotência da sociedade perante o crime no Brasil. Se se mantiver esse sentimento, aí sim, será o começo do caos! Em momento algum o criminoso deve gozar da suspeita de que está ganhando a briga com a instituição. Esta jamais poderá descer ao nível dos agentes do crime, seja nos métodos ou no próprio descontrole. Os Estados Unidos nos anos 30/40 tiveram a guerra interna quase perdida e se recuperaram. Não é impossível, embora difícil. Por aqui, já temos um Ministério Público ágil e políticos determinados a combater as trevas do submundo. Nas corporações policiais contamos com homens e mulheres conscientes de seu dever e prontos para o cumprir.
O que falta então? Imediatamente, vontade política para isolar e punir os que se beneficiam ou se envolvem com a criminalidade investigando-os e condenando-os. Mas o essencial é mesmo melhorar as condições econômicas dos cidadãos e relevar o crime ao patamar que assume em qualquer país desenvolvido, que não fique fora do controle do Estado. A este, compete-lhe devolver à nossa gente, a sensação de segurança que ela está perdendo. E a nós, não perdermos de vista valores sem os quais nenhuma sociedade sobreviverá.
Márcio Juliboni
Agência Estado





