A inocência desmoralizada
A inocência desmoralizada
Rubem Azevedo Lima
Por maiores e piores que sejam suas culpas, muita gente, no País, habituou-se, nos últimos anos, quando em dificuldades, a declarar-se inocente e vítima de maquinações alheias. Alguns exemplos: Luiz Estevão teve o mandato cassado pelos senadores, entre outras coisas, por mentir ao Senado, mas se diz inocente. João Alves, um dos vários dos anões do Orçamento, cassado sob a acusação de apropriar-se de recursos públicos, alega inocência até hoje.
O banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, dono de um tamborete bancário, faliu, mas obteve empréstimo de R$ 1,6 bilhão no Banco Central. Não o pagou e agora passa-se por vítima. O ex-ministro Bresser Pereira abona a inocência de Eduardo Jorge ex-companheiro de ministério, amigo do presidente da República Fernando Henrique durante quinze anos no caso da liberação de verbas do Orçamento para o juiz Nicolau Neto, que desviou R$ 169,5 milhões dos recursos liberados para a construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP). Para Bresser, Caldas só fazia lobby, o que ele acha normal e inocente, embora o lobista agisse dentro do Palácio do Planalto.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, que dissera, há dias, ignorar os feitos de Eduardo Jorge, parece endossar a versão de Bresser ao admitir que seu ex-assessor agia por conta própria. Aliás, na privatização de uma empresa telefônica, o ex-ministro Mendonça de Barros e outros também fizeram lobby explícito, após falarem ao telefone com o presidente.
E Teresa Grossi, acusada, no relatório de uma CPI, de envolver-se na concessão do empréstimo a Salvatore Cacciola, foi, depois, indicada por Fernando Henrique diretora de Fiscalização do Banco Central, com apelos para aprovarem tal indicação, feitos por ele à maioria governista no Senado e atendidos, sob protestos da minoria.
No Brasil, a invenção de desculpas, para criar inocências, também se generalizou. O deputado Sérgio Miranda mostrou que a nota palaciana sobre responsabilidades dos Três Poderes na elaboração orçamentária é mentirosa. Assim, inocência, no Brasil, deixou de ser apenas conceito jurídico preciso e se tornou regra elástica, para fins econômicos ou políticos.
Por isso, talvez, quando se fala de culpa das autoridades, ainda que algumas pareçam notoriamente desonestas, evita-se levar o assunto adiante, agora sob um pretexto fantástico: é impatriótico expor nossa economia ao risco de turbulências. Eis uma tese tartufista, pois o País, no quadro da corrupção mundial, já está em posição destacada e é isso que inibe os investimentos externos decentes.
Varrer essas mazelas para baixo do tapete, no lugar de removê-las de vez, é proporcionar-lhes ambiente propício para proliferarem como ácaros e facilitar a espoliação das riquezas do País, por quadrilhas de brasileiros ou estrangeiros sem escrúpulos nem compromissos com os interesses nacionais.
A melhor receita para estancar a maré da falsa inocência atualmente existente dos corruptos brasileiros será levá-los, sempre, a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), passando-os também pela malha fina dos jovens procuradores, novos Robespierres da democracia, sem guilhotinas mas com perfeita visão de justiça social.
- RUBEM DE AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





