Mesmo debilitado, o papa Francisco decretou, às vésperas do Natal de 2024, a abertura da Porta da Santa Basílica de São Pedro para anunciar o Ano Jubilar de 2025, cujo tema é “Peregrinos da Esperança”. Ele também antecipou o lançamento de sua autobiografia (a primeira publicada por um papa), escrita pelo editor Carlo Musso a partir de depoimentos de Francisco no período de 2019 a 2024. Era para ser uma obra póstuma, mas, surpreendentemente, ele apressou a divulgação.

Tanto o livro de seu testemunho de vida como o Ano do Jubileu (que vai até 6 de janeiro de 2026) têm como fundamento a palavra “Esperança”. Para o papa Francisco “esperança” é “uma virtude cristã, um dom e uma tarefa para todo cristão. É um dom porque é Deus quem a oferece a nós. Esperar, de fato, não é um mero ato de otimismo, como quando, às vezes, esperamos passar em um exame na universidade ou esperamos que o tempo esteja bom para o passeio fora da cidade em um domingo de primavera. Não, esperar é aguardar algo que já nos foi dado: a salvação no amor eterno e infinito de Deus”.

Certamente, o sumo pontífice tinha esperança em eleger um cardeal que levasse adiante as suas reformas. Os vaticanistas apontavam como favoritos Pietro Parolin (Itália), Luis Antonio Tagle (Filipinas), Matteo Zuppi (Itália), Pierbattista Pizzaballa (Itália), Robert Sarah (Guiné-Conacri), Péter Erdő (Hungria), Jean-Marc Aveline (França), Charles Bo (Mianmar), Fridolin Ambongo (República Democrática do Congo), Willem Eijk (Holanda) e Anders Arborelius (Suécia). Mas quem acertou a escolha do cardeal Robert Francis Prevost, que se tornou o papa Leão XIV, foi o reitor da PUC-Rio, o padre Anderson Antônio Pedroso. Ele observou a indicação de Prevost, em fevereiro, a cardeal-bispo da Diocese Suburbicária de Albano, um dos mais importantes prelados da Igreja Católica. Observou também que, em janeiro de 2023, ele já havia sido nomeado por Francisco prefeito do Dicastério para os bispos.

Essas duas promoções, num curto espaço de tempo, justamente diante da brevidade do próximo conclave, foram captadas como sinais de que o pontífice tinha plena confiança em Prevost. O papa não tem o poder de eleger o seu sucessor, mas é ele quem escolhe os eleitores. Exemplo: dos 133 cardeais com direito a voto no recente conclave, 108 foram criados pelo papa. Francisco, pela primeira vez, incluiu como cardeais eleitores representantes do Haiti, Mongólia, Mianmar (Birmânia), Malásia, Tonga, Cabo Verde, Timor Leste, Suécia, Irã, Luxemburgo, Singapura, Sudão do Sul, Gana, Ruanda, El Salvador, Bangladesh, República Centro-Africana, Papua Nova Guiné e Sérvia.

Dioceses tradicionais como as de Milão, Veneza, Sydney, Viena, Gênova, Paris, Nova York, Palermo, Nápoles, Armagh (Irlanda do Norte) e Cracóvia não tiveram nenhum cardeal eleitor. Enquanto a Europa perdeu representatividade no Colégio Cardinalício, Ásia e África ganharam força. O novo papa precisava de 89 votos para ser eleito, mas o cardeal Désiré Tsarahazana, de Madagascar, declarou à rádio italiana RAI que Prevost teve bem mais de 100 votos no conclave.

Chamou a atenção a ausência de um cardeal eleitor de Milão, de onde saíram três papas (Urbano, Paulo VI e Pio XI), a qual se declara “a mais importante diocese do mundo, a primeira da Europa em número de católicos com 1.100 paróquias, 1.700 padres diocesanos, em um território que inclui as províncias de Milão, Varese e Lecco, Monza-Brianza, parte de Como e alguns municípios das províncias de Bérgamo e Pavia — uma população de mais de 5,5 milhões”.

Desde 2017, o arcebispo de Milão é Mario Enrico Delpini - sucessor do ex-papável do conclave de 2013 Angelo Scola. Delpini foi nomeado arcebispo pelo papa e havia a expectativa de que, como líder metropolitano, chegasse a cardeal. Porém, Francisco escolheu como eleitor o arcebispo de Como, Oscar Cantoni. Detalhe importante: Como é uma das dioceses sufragâneas justamente da Província Eclesiástica de Milão. Em setembro de 2022, durante a primeira missa de Oscar Cantoni como cardeal, na Catedral de Como, o arcebispo de Milão aproveitou a ocasião para explicar o porquê dele não ter se tornado cardeal. Ironizando o papa Francisco, Delpini afirmou: “Nem Deus sabe o que um jesuíta pensa”.

Fervoroso torcedor do San Lorenzo de Almagro, o papa Francisco confessou que não tinha nenhuma intimidade com a bola, mas demonstrou grande habilidade ao escolher os cardeais que elegeram o seu sucessor.

Edinelson Alves, jornalista

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