A infeliz expulsão dos próprios filhos
Essa é a pergunta que ninguém em Brasília parece estar disposto a responder
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Essa é a pergunta que ninguém em Brasília parece estar disposto a responder
Imagine acordar todos os dias num lugar onde seus sonhos têm validade curta, sua segurança depende da sorte e o retorno do seu esforço é um terço do que seria em outro lugar. Agora, imagine ter a chance de sair. O que você faria?
Essa não é uma provocação retórica. É a pergunta que 40% dos brasileiros responderam com um “eu sairia”.
E não se trata de conversa de boteco ou impulso de rede social — são dados concretos. Uma pesquisa conduzida pelo Observatório Febraban com 3 mil pessoas revelou que metade da força produtiva do Brasil quer ir embora. O resto? Parte está em dúvida. Parte apenas não encontrou o meio ainda.
A ferida não é nova. Mas agora, ela sangra.
Por que as gerações que mais estudaram, mais produziram e mais se conectaram com o mundo estão dispostas a abandonar tudo e recomeçar em outro lugar? Essa é a pergunta que ninguém em Brasília parece estar disposto a responder. Mas quem lidera, quem constrói, quem decide — precisa entendê-la a fundo.
Você pensaria que o motivo é a grama mais verde do vizinho. Não é. É o concreto rachado do seu próprio quintal.
A Geração Y acreditou no esforço. Estudou, se especializou, produziu. E recebeu em troca: custo de vida insustentável, serviços públicos desmoronando, violência como pano de fundo, previsibilidade zero. Eles não estão desistindo. Estão racionalizando. E quem entende de custo-benefício sabe: a equação Brasil quebrou.
A Geração Z sequer viu o país funcionar. Cresceu na crise, formou-se no caos e assiste ao mundo pela janela digital. Comparam. E o Brasil perde.
Não estamos falando de turistas que querem explorar o exterior. Estamos falando de médicos, engenheiros, programadores, empreendedores, líderes. Gente que move a economia, que educa filhos, que gera empregos. Gente que aprendeu, muitas vezes com dinheiro público, e agora vai aplicar esse conhecimento lá fora.
Enquanto isso, quem fica? A máquina pública ineficiente, a elite política cega e a base produtiva… minguando.
Ficar virou sinônimo de não conseguir sair. Não mais de escolha. E isso é a falência emocional de uma nação.
Enquanto você lê este texto, alguém está comprando passagem. Outro está aplicando para um visto. Outro acaba de ser aprovado em um processo seletivo fora. Não é fuga. É lucidez.
O país cobra caro e entrega pouco. A esperança é tributada. O mérito, penalizado. O futuro, adiado. E no fim do dia, quem carrega o Brasil nas costas está cansando. Não de trabalhar. Mas de ser feito de bobo.
E talvez, só talvez, tenha chegado a hora de pararmos de perguntar por que estão indo — e começarmos a perguntar: por que ainda ficar?
Abraham Shapiro (consultor de empresas) - Londrina





