A indústria, o meio
ambiente e o Paraná
Marcelo A. NolascoDesde o início desta década, o Brasil vem passando por um profundo processo de transformação, resultante da combinação de estabilidade econômica, abertura externa e reestruturação produtiva. Estas mudanças têm provocado um ampla redefinição das bases econômicas e sociais do País, gerando, ao mesmo tempo, novos problemas e restrições, mas também oportunidades.
A Região Sul do Brasil, por sua vez, representa atualmente uma base da economia brasileira, com relativo destaque na produção industrial, sólida posição no setor agrícola e crescente participação no PIB nacional, assim como no comércio externo. Dado a sua proximidade geográfica com os demais países membros do Mercosul, o Paraná vem sofrendo a influência de novos e dinâmicos processos de integração econômica, e o seu desenvolvimento resulta como subprodutos inevitáveis, maiores impactos ambientais.
Em uma perspectiva mais ampla, o grande desafio está em desenvolver uma economia global sustentável: uma economia em que o Planeta é capaz de suportar indefinidamente. Ou seja, na busca de atender asnossas necessidades imediatas, estamos destruindo as possibilidades das futuras gerações alcançarem as delas. Muitos são os fatores determinantes dos problemas ambientais e envolvem aspectos políticos e sociais, no entanto, apenas as empresas possuem recursos, tecnologia e motivação para alcançar um grau elevado de sustentabilidade.
Sob a ótica do desenvolvimento sustentável, a atuação responsável de empresas com a proteção ambiental e com a sociedade é fundamental. Somente há transformação com mudanças de paradigma. Considerando-se o contexto de todo o Planeta, na qual as empresas estão inseridas e (potencialmente) realizando negócios, a pergunta primordial que os empresários devem fazer a si próprios é a seguinte: até que ponto suas empresas apresentam soluções aos problemas ambientais e sociais existentes ou, até onde elas são partes do problema?
Existem empresas que estão trazendo para a corporação problemas antes considerados alheios a elas, passando a ter maiores responsabilidades em relação ao meio ambiente, o que inclui o desenvolvimento de produtos e processos mais limpos, que não causem impactos negativos ao meio ambiente. Nos países industrializados, um maior número de empresas está se adequando ambientalmente, principalmente quando elas percebem que é possível reduzir a poluição e obter um aumento de lucro simultaneamente.
Basicamente, para que uma empresa se torne ambientalmente correta, é necessário passar por três estágios de estratégias ambientais: 1) Prevenção da poluição: o primeiro passo é ultrapassar o estado de ‘‘controle da poluição’’ para o de prevenção à poluição - ao invés de tratar os resíduos depois que eles são produzidos, deve-se buscar reduzi-los ou eliminar antes que os mesmos sejam produzidos; 2) Gerenciamento do produto: significa uma preocupação que passa pelo estágio de redução da poluição na fabricação do produto, e leve em consideração todos os aspectos ambientais relacionados com o ciclo-de-vida do produto, ou seja, desde a matéria-prima, passando pelo seu beneficiamento, a utilização, até a sua disposição final; 3) Tecnologias limpas: empresas com uma visão de futuro, podem começar a planejar em investir em tecnologias ‘‘do amanh㒒 que, por exemplo, utilizam equipamentos que consomem menos energia, água e matéria-prima e fazem produtos com mínimo impacto.
Segundo Stuart Hart, da Universidade de Michigan (EUA), no futuro os automóveis deverão ser muito diferentes do que os encontramos hoje - os supercarros serão totalmente recicláveis, terão uma eficiência energética 20 vezes maior, 100 vezes mais limpos (não-poluentes) e melhor ainda, terão preços menores.
Uma estratégia ambiental integrada deve levar não somente ao desenvolvimento de novas competências, mas deve também reestruturar o relacionamento da empresas com clientes, fornecedores, com outras empresas e acionistas. As companhias podem (e devem) influenciar o comportamento dos clientes, criando preferências por produtos e serviços ambientalmente corretos. Elas assumiriam também um papel de educadores e não simplesmente fabricantes e vendedores de produtos.
Em relação ao Paraná, que passa por um processo de industrialização, este assunto é extremamente relevante, pois diante de um estágio ainda relativamente baixo de industrialização, é possível queimar etapas neste processo de fortalecimento do setor produtivo. Ou seja, é preciso aprender com a experiência dos países desenvolvidos e das regiões altamente industrializadas (a exemplo de São Paulo), sem ter que passar por muitas delas, especialmente as negativas.
Faz-se, portanto, urgente identificar estratégias, a partir de uma aliança entre os diversos segmentos da sociedade, para selecionar o perfil do setor produtivo que melhor se enquadra na realidade atual e futura do Estado que, ao mesmo tempo atenda a uma perspectiva de maior integração do Mercosul e seja ambientalmente sustentável.
Nestes termos, a definição das políticas industriais devem necessariamente contemplar a inserção do componente ambiental no estabelecimento de estratégias de desenvolvimento tecnológico. Só assim, poderemos evitar um cenário sombrio.
Finalmente, um novo modelo de desenvolvimento deve ser buscado, conciliando eficiência econômica, equilíbrio ambiental e integração social, baseado nos preceitos do desenvolvimento sustentável. Os riscos devem ser transformados em oportunidades de crescimento, aliados à exploração equilibrada dos recursos naturais para gerar reflexos ambientais e sociais positivos a médio e longo prazos.
- MARCELO A. NOLASCO é doutor em Engenharia e pesquisador do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em Curitiba

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