A indústria, o comércio e a Copel
O debate sobre a desestatização da Copel, Cemig, Furnas, Chesf e outras geradoras apaixona o Brasil. Aqui no Paraná temos de um lado o governador Jaime Lerner, com a capacidade de convencimento que o poder dá, mesmo em fim de governo. De outro, seis ex-governadores, três senadores, o Crea, a OAB, o Sindicato dos Engenheiros e toda a chamada sociedade civil organizada, câmaras municipais à frente. E parte da imprensa. Além, é claro, de um número surpreendente de deputados estaduais, quase todos os federais e milhares de vereadores, a maioria governistas.
Na minha opinião, falta alguém importante neste debate: os industriais e comerciantes do Paraná e do Brasil. O que estarão pensando sobre a privatização das empresas geradoras aqueles empresários que mais dependem da energia, como os exportadores de frango congelado, do aço, dos veículos, do calcário, do cimento e do papel?
A indústria brasileira firma-se no mundo de forma surpreendente. Dos aviões de médio porte à carne enlatada, nossas empresas aprenderam as lições da globalização, reduziram custos e lançaram-se à disputa no mercado internacional. Mas e se a oferta de energia diminuir, após a passagem da geração para o controle privado, como ocorreu na Califórnia, e em outros 18 Estados americanos? Adam Smith leciona: oferta baixa é sinônimo de preço alto.
Sem controle estatal após 2002 à razão de 25% ao ano, os contratos iniciais de fornecimento, com tarifas controladas pela ANEEL, vão perder gradualmente sua validade até chegarmos em 2005. Aí toda a energia deverá ser comprada por preços absolutamente livres. Como obras de geração levam anos para ficar prontas, as projeções de todos os especialistas, dos analistas de mercado e de todos os estudiosos nas universidades apontam para uma elevação sensível dos preços da energia já nos próximos anos. Esta é a previsão de todas as 28 empresas comercializadoras de energia e da própria Tradener, subsidiária da Copel que atua com grande sucesso na venda de energia.
Na falta de melhores argumentos, nosso governador contradiz todo mundo, diz que a energia vai baixar de preço e, que por isso, é melhor vender rápido a Copel. A verdade inegável dos fatos é que o consumo de energia no Brasil tem crescido nos últimos 15 anos na velocidade média de 7% ao ano, ou um Paraná por ano. Isso mesmo. É como se a cada ano fosse ligado no sistema brasileiro todas as indústrias, todas as cidades que existem no Paraná. Todo ano, um Paraná de carga extra no sistema - como gosta de dizer o professor Roberto DAraújo, do Instituto Ilumina, da COPPE-Universidade Federal do Rio de Janeiro. E a geração, quanto tem crescido? Apenas 3,5% ao ano, desde 1991.
Como ainda não estamos no escuro?
Em primeiro lugar, porque Deus também é brasileiro. Em segundo, porque a margem de segurança com que foram planejados os reservatórios de nossas usinas foi suficiente para cobrir, até agora, com água de um ano parte do período de seca do ano seguinte. Como sair dessa? Com certeza não será entregando, bem agora, o controle do nosso futuro energético a quatro ou cinco grupos privados estrangeiros que estariam livres para fazer aqui o que já fizeram em seu país de origem: deixaram de investir em geração para forçar aumentos de preços.
Igualzinho como, de vez em quando, fazem os países da OPEP, para subir o preço do barril de petróleo. Só que para convencer a OPEP a aumentar a produção e baixar os preços temos do nosso lado os bombardeiros das esquadras do Tio Sam. E para convencermos a AES, a EDP, a Enrom e a Duke Energy a investirem em geração para baixarmos as tarifas, com quem contaríamos? Além do mais, preços altos de energia no Brasil ajudariam nossos concorrentes na competição pelo mercado internacional, baixando a capacidade de competição de nossas indústrias.
A previsão de quase todos os especialistas é que o comércio e a indústria do Paraná e do Brasil serão diretamente afetados em sua competitividade pelo que acontecer com a Copel, Furnas, Chesf e Eletronorte. Se acontecer no Brasil algo parecido com o que ocorreu com as tarifas na Califórnia, muitas empresas verão seus custos subirem numa escalada incontrolável, pois o custo da energia não afetará apenas o seu processo produtivo, mas todos os demais insumos e serviços que entram na sua composição. Toda uma cadeia de fornecedores terá aumentos na energia a transferir para os componentes. Custos mais altos significam menor competitividade, menos exportação, menos empregos, menos desenvolvimento.
Parece que nossa imprensa tem evitado falar na Califórnia. A verdade é que as tarifas chegaram a 800 dólares por MWh no horário de pico no dia 22 de janeiro último (nossa tarifa industrial hoje anda perto de 40 dólares). Dezenas de pessoas morreram em elevadores parados, desastres em semáforos apagados e mesas de operação. Segundo o Wall Street Journal, mais de 600 empresas já foram à falência devido aos apagões e aos novos custos da energia. O governo da Califórnia pagou US$ 13 bilhões em subsídios para as distribuidoras não quebrarem. Um motorista morreu quando jogou seu caminhão contra o prédio da Assembléia Legislativa estadual para protestar. No último dia 21, o Senado estadual autorizou o governo da Califórnia a encampar as redes elétricas das duas distribuidoras locais, para pagar os subsídios concedidos.
Dois últimos dados ilustram que apesar do silêncio aparente da maioria das entidades de classe, alguns empresários já transformaram preocupação em ação concreta: enquanto em 1998 a ANEEL aprovou apenas 28 MW em projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas, em 2000 a potência total dos projetos aprovados atingiu 499 MW. A maioria de propriedade de indústrias que estão se preparando superar a crise. E mais: de 1996 até agora, através de estudos sobre eficiência energética, indústriais e comerciantes já tiraram do sistema 1,2 mil MW, uma Salto Caxias, que estavam sendo desperdiçados.
Em Minas, a Federação das Indústrias já manifestou interesse em juntar-se à Cemig para impedir que, no caso da privatização de Furnas, seu controle acionário saia do Estado. Já levaram todo o investimento que fizeram, disse um dirigente empresarial, referindo-se ao fato de os sócios estrangeiros da Cemig terem enviado para o exterior os lucros que tiveram com o negócio, sem reinvestir em Minas.
Com a palavra, sobre a privatização da Copel e de outras geradoras nesta conjuntura, os empresários do comércio e da indústria do Paraná e do Brasil.
Energia barata e fornecida com qualidade é fundamental para a competitividade de nossos produtos aqui e lá fora. Se o silêncio para alguns é de ouro, o choro de todos depois pode ser de lata...
IVO AUGUSTO ABREU PUGNALONO é engenheiro eletricista, mestrando em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Paraná e consultor em energia





