A indústria da morte - Isabel Kugler Mendes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de maio de 1999
Isabel Kugler Mendes 
O Brasil se apronta para comemorar seus 500 anos sem que sua gente se identifique com seu passado e presente, com seus valores seculares e mesmo espirituais. É difícil para nosso povo compreender o conflito de Kosovo, por exemplo. Como pode uma batalha entre sérvios e turcos, travada em 1389, alimentar o sentimento de ódio entre habitantes de um mesmo país, a ponto de pretender justificar o verdadeiro genocídio que vem ocorrendo com a brutal agressão da Otan à Iugoslávia? Não tem sentido. Nada justifica a interferência desse organismo, que representa tão-somente 19 países, mas age, sob a batuta dos EUA, como se decidisse em nome de todas as nações do Planeta Terra.
Sem defender as ações desumanas da Iugoslávia contra Kosovo, é preciso analisar o que significa para seu povo esse território, e os identificadores históricos, culturais, políticos, econômicos e espirituais da nação, para só então se fazer o julgamento.
Vendo as imagens das ações da Otan que, num piscar de olhos devasta, com mísseis e bombas, escolas, casas, fábricas, praças, jardins, pontes, aeroportos, embaixadas e vidas, lembramos de algumas comparações feitas por uma pedagoga norte-americana, Magda Mchale, há alguns anos, que nos levam a refletir sobre a indústria da morte sustentada pela Otan, que não apenas reativa a indústria bélica, como testa armas novas. Como a bomba de grafite, que corta a energia elétrica, e outras que, certamente não chegam ao conhecimento de simples mortais como nós.
Afirma a pedagoga que um porta-aviões equivale, em termos de recursos financeiros a 12 mil escolas. Um míssil custa o mesmo que 40 milhões de almoços escolares. Um avião naval tem o mesmo valor de 285 apartamentos médios de Nova York. Um bombardeiro aéreo, equipado com todos os seus armamentos, ocupa os recursos financeiros suficientes para adquirir 250 milhões de cadeiras escolares, ou montar 35 universidades, ou 75 hospitais de 100 leitos, ou comprar 100 mil tratores, ou 15 mil colheitadeiras.
Estas comparações, que talvez estejam até abaixo do valor das armas hoje, mostram a desumanidade da Otan e a ambição desmesurada dos norte-americanos, que preferem investir na indústria da morte, do que em outros meios, que poderiam ter evitado a tragédia de Kosovo, e outras. E evidencia, também, que a humanidade gasta, a cada ano, importâncias superiores a US$ 1 trilhão com despesas bélicas (fabricação de armas, sustentação de guerras fratricidas, como a de Kosovo, da África etc). E enquanto isso, aumentam no mundo a fome, a miséria, as doenças, o analfabetismo, o sofrimento, a brutalização e a violência. O que significa que se gasta perto de US$ 1 milhão por minuto em armamento.
Vendo essas cifras fantásticas sendo utilizadas para a guerra, não podemos deixar de pensar no bem que se faria para a humanidade se esses valores fossem aplicados em projetos voltados para a realização do ser humano. Por exemplo, poderiam ser encontradas soluções para problemas globalizados, apontados pela FAO (organismo da ONU que se dedica aos alimentos) como esses: 1 bilhão de menores carentes vivendo em condições miseráveis e perambulando pelo mundo; metade da população mundial não sabe ler nem escrever; cerca de 500 milhões de pessoas no mundo são subalimentadas e quase metade dessas passa fome. E o que dizer do problema das drogas, que matam o futuro de milhares de vida a cada ano? E a violência, que grassa entre crianças e adolescentes? E a falta de moradias? E o desemprego?
Dizer o quê? Que a grande maioria da população mundial sofre de necessidades como essas, que a impedem de viver uma vida digna. Ou que, ao invés das nações desenvolvidas investirem para a guerra, colocando em risco a sobrevivência da humanidade, invistam para alcançar a paz. Que construam escolas em vez de porta-aviões. Que distribuam alimentos aos famintos, ao invés de mísseis. Que construam moradias, ao invés de destruir cidades. Que distribuam medicamentos, ao invés de bombardeios com armas atômicas e químicas. Que invistam na paz e não na indústria da morte.
Mas será isso possível? Sim, desde que exista entre todos os homens compreensão, renúncia, respeito, amor e dignidade. Essa é a solução que vemos para que essa loucura bélica que atinge muitas nações não coloque em risco a sobrevivência de toda a humanidade. Como vemos que, a única solução para Kosovo é reverter os investimentos para a guerra em investimentos para a paz. Soluções existem; o que falta é boa vontade, e respeito a Deus e à vida.
- ISABEL KUGLER MENDES é advogada e presidente do Conselho Municipal da Condição Feminina em Curitiba


