A indústria da irresponsabilidade
José Aparecido AlvesNosso ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto, um dos homens mais lúcidos que estiveram na política durante o Estado Novo no Paraná, alertava os homens de bem quanto aos espertalhões, pregando o cuidado que se deve ter com aqueles que, em nome do povo, levantam mentiras e meias-verdades, para o mesmo povo, que supostamente defendem. ‘‘Sejam os brasileiros incansáveis no combate à esperteza’’, conclamava Bento. ‘‘Não a tratem com carinho, como é frequente. Convençam-se de seu aviltamento’’. Quase meio século se passou e as palavras de Bento ainda ecoam pelas ruas de Curitiba.
Recebi nesta semana uma publicação do PMDB de Curitiba. O partido foi reconhecidamente combativo durante a ditadura, incansável na luta pelas Diretas e já teve em suas fileiras as mentes mais brilhantes deste País. Mas ao me dar conta de conteúdo da publicação fiquei extremamente preocupado. Num artigo, o ex-deputado federal Maurício Requião (que segundo me foi informado é hoje funcionário do gabinete do seu irmão, senador Roberto Requião) de forma maldosa levanta suspeitas sobre a aplicação do Novo Código de Trânsito Brasileiro em nossa cidade.
Segundo ele, multar é penalizar o bolso do curitibano. Ora, Dr. Ulisses Guimarães, se vivo fosse, morreria mais uma vez, ao ouvir tal sandice de um peemedebista. A multa só existe, dentro do Novo Código, para penalizar os maus motoristas, aqueles que fazem dos seus automóveis uma arma perigosa e que daí sim, colocam em risco a família curitibana.
A mentira sempre serve a interesses escusos. Qual não seria o interesse de Maurício ao tentar macular a imagem de um dos melhores prefeitos do Brasil, como demonstra a última pesquisa nacional do Datafolha?
Todos sabem que a campanha eleitoral já está nas ruas. A possibilidade da reeleição mexeu com o apetite dos adversários do prefeito e dos partidos de oposição. Incapazes de elaborar um discurso consistente com denúncias sérias e verdadeiras, ele apelam, e feio, para a calúnia e a mentira deslavada.
Mas a mentira precisa de uma veste material. O funcionário do senador Requião formula então, um projeto de iniciativa popular para eliminar o rigor na observação do Novo Código pelo poder público. A partir de mentiras e da irresponsabilidade de se pedir o fim dos radares e lombadas eletrônicas, Maurício induz os curitibanos menos esclarecidos a assinarem um documento que só poderia ser inventado por pessoas de má-fé.
Eles querem ainda o fim das multas; que a impunidade campeie por nossas ruas; que o cidadão fique refém dos irresponsáveis que não sabem se comportar no trânsito. E com certeza, estes defensores da ‘‘indústria da irresponsabilidade’’ serão os primeiros a acender a primeira vela para as vítimas de suas sandices. E com certeza, com soluços e choros de carpideiras, voltarão a mentir e a dizer que jamais pregaram a desobediência civil.
E por último, nem a Câmara de Curitiba escapou da mentira. Maurício diz que nós não estamos sintonizados com os anseios da população, por um problema de correlação de forças dentro desta Casa. O erro de lógica aqui é evidente: se hoje somos maioria, é porque o povo assim o desejou. Se hoje eles são minoria, é porque o povo é sábio. O povo soube conduzir para esta Câmara exatamente aqueles que estavam em sintonia com seus anseios.
- JOSÉ APARECIDO ALVES (JP) é vereador em Curitiba e líder do PSB na Câmara

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