A indústria automobilística não é neoboba
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terça-feira, 01 de julho de 1997
Ricardo Gomyde 
As informações do mercado automobilístico internacional dão conta de que o setor caminha para um desastre. A razão, segundo reportagens publicadas na imprensa internacional é que, com a corrida das principais montadoras mundiais de automóvel na busca de novos mercados na Ásia e na América Latina, estima-se que, por volta do ano 2000, esta indústria estará produzindo 22 milhões a mais de veículos do que a demanda da população mundial. Isso significa que, se toda a produção de carros dos Estados Unidos deixasse de existir, ainda haveria carros demais no mercado.
Teriam essas empresas enlouquecido, dispondo-se a empatar bilhões de dólares na construção de novas fábricas para depois não ter a quem vender o excesso de sua produção, comprometendo assim a rentabilidade de seu capital? Sabendo que toda grande empresa, quando faz um investimento, prescinde de um estudo de mercado detalhado, essas empresas não estão jogando dinheiro fora. Todo seu movimento é baseado em análises claras do comportamento dos mercados onde se instalam.
Então o que está ocorrendo? Na verdade, boa parte do dinheiro que está sendo aplicado nesses novos investimentos, no Brasil e no mundo, é dinheiro público. Com um discurso de incentivo ao desenvolvimento das regiões, os governos investem fábulas na instalação de montadoras e fábricas de componentes para o setor automobilístico.
Não seria coerente, portanto, contrariar a instalação de uma montadora de automóveis, uma vez que tal investimento resultaria em uma dinâmica de crescimento econômico muito positivo. Porém, é fundamental exercer o bom senso e perceber que a realidade não é bem essa.
Para não ir muito longe, veja-se o caso da nova fábrica da GM no Rio Grande do Sul. Para atrair a empresa para seu Estado, o governador Antônio Brito decidiu emprestar à GM todo o dinheiro necessário à sua instalação, ou seja, R$ 335 milhões. Este empréstimo, a empresa pagará em 10 anos, a partir de 2002, com juros de 6% ao ano (ao ano!), sem nenhuma indexação. Esta vantagem é bem diferente da existente para a população. Para os comuns, as taxas de juros são exorbitantes, fazendo com que um trabalhador ao comprar um refrigerador, pague, somente com os juros, outro refrigerador.
Além disso, o governo do Estado pagará todas as obras de infra-estrutura para a construção da fábrica e, a partir de 1999, financiará parte do capital de giro da empresa, durante 15 anos, emprestando o equivalente a 9% do faturamento, sem juros nem correção. Ao que consta, a empresa garante criar 1300 empregos, ou seja, cada emprego custará ao Estado gaúcho quase trinta mil dólares.
Na verdade, criar empregos é muito positivo. Deveria ser uma das principais metas de todos os governos. Porém, esta não é a melhor forma. Esse investimento poderia ser usado em vários incentivos à produção primária ou em programas na agricultura, o que beneficiaria um número muito maior de trabalhadores.
Será possível justificar um investimento do governo, tão vultoso, pensando apenas ser este o melhor caminho para o desenvolvimento do Estado? Será que esta é a única preocupação do governador? Não consigo encontrar explicações objetivas para essas perguntas.
No Paraná com a Renault, em Minas Gerais com a Mercedes Benz e no Rio de Janeiro com a Volkswagen, a história não será diferente. O que se percebe é uma clara disposição de esconder da população os acordos negociados entre o governo e as multinacionais. Não é de admirar, portanto, que essas empresas arrisquem tanto. Afinal, estão arriscando dinheiro alheio. O delas está garantido.
No Paraná precisamos ficar de olhos bem abertos para não permitir que recursos públicos, arrecadados com o pagamento de impostos pela população, sejam aplicados de forma irresponsável. O discurso do combate ao desemprego está servindo de álibi para privilegiar grandes multinacionais. O investimento no combate ao desemprego passa muito mais pelo incentivo ao desenvolvimento das pequenas e microempresas.


