A indignação dos esbulhados - Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
A indignação dos esbulhados
Estava pensando naquelas famílias de imigrantes que chegaram ao Paraná no início do século trazendo na bagagem a ansiedade, a disposição, a vontade, a coragem e talvez um pouco de temor. Famílias que desembarcaram em nosso Estado, arrancados, com raiz e tudo, de seu país natal, sua cultura, seus parentes, seus amigos, seus sonhos. Aqui chegaram e se lançaram à terra, destocando, semeando, colhendo, ajudando a fazer do Paraná o celeiro do Brasil que hoje ele ainda é. Famílias que foram enfrentando as intempéries, a rusticidade, as dificuldades dos parcos recursos, e que, geração após geração, foram se adaptando, foram construindo e consolidando a estrutura de seu trabalho - sempre sob o risco de inesperadas quebras de safra.
Dessas famílias nasceram brasileiros que continuaram o trabalho de seus pais, lutando, senão pela prosperidade, ao menos pela manutenção da produtividade da fazenda.
Porém, lá um belo dia uma dessas famílias sai a passeio, num domingo. Vai passar o dia na caso do compadre, levando a salada e o bolo, preparada para prosear bastante, para pescar no riacho, para jogar, para tocar violão e cantar. Daí, na volta para casa, ao anoitecer, o pessoal dá de cara com a porteira fechada, trancada com corrente, com sentinelas armados de facão e foice (claro, instrumentos de trabalho). A sua fazenda fora invadida por militantes do Movimento dos Sem-Terra. Invadiram a propriedade, invadiram a sede, invadiram a sala, a cozinha, o quarto e o banheiro da família. Invadiram a geladeira, o guarda-roupas, e usaram víveres e vestuário da família. Não adiantou nada o dono da fazenda tentar argumentar que sua terra é toda produtiva, que não está nem sequer sob cogitação de estudos do Incra para desapropriação... Aliás, o proprietário não consegue nem terminar as frases. Tem que fazer meia-volta e dar um jeito de acomodar a família em algum lugar para passar a noite? Passar a noite? Quantos dias essa família passará fora do seu lar, sabe-se lá onde (na casa do compadre?), até que a Justiça lhe conceda ordem de reintegração de posse? Noutros tempos, no passado recente, nem essa ordem judicial garantiria o alívio da família esbulhada, pois o oficial de Justiça que tentasse cumpri-la poderia acabar apanhando dos invasores - o governo estadual estava fazendo onda para fornecer força policial. Atualmente, graças a um surto de legalidade e respeito ao estado democrático de direito, o governo está fazendo cumprir as ordens do Poder Judiciário, e desocupando as terras invadidas.
Desocupada a fazenda, a família, vestindo a mesma roupa usada naquele malfadado domingo, entra na casa. Pode-se imaginar o sentimento de revolta, de indignação, de repúdio, que essas pessoas terão ao ver a desordem deixada pelos invasores. Pasto queimado, gado carneado, galinheiro vazio, roupas, pertences, objetos pessoais, usados, gastos, jogados? Sujeira por toda parte... Exatamente a sensação de quem teve a casa assaltada.
Uma única vez assisti reportagem feita por um telejornal regional mostrando essa chegada. Pessoas trabalhadoras, dignas, honestas, molhadas em lágrimas, olhando o resultado da fúria dos invasores, contando os prejuízos, reunindo forças para recomeçar do zero. Vi isso uma única vez. Em momento nenhum eu vi comissões de direitos humanos apreciando a violência praticada pelos sem-terra. Em momento nenhum eu vi comissões integradas por religiosos profissionais zelando pela incolumidade moral e física das vítimas dos invasores. O que vejo, com pesar, é um imenso espaço concedido pela imprensa às versões dos invasores, e um espaço mínimo, ou nulo, para a versão das vítimas. O que vejo é o Movimento dos Sem-Terra ainda fazendo ameaças de continuar esbulhando propriedades produtivas, desafiando e desacreditando as autoridades públicas. O que vejo é o movimento desfraldar uma bandeira revolucionária (armada?) cujos objetivos vão muito além da mera reforma agrária. O que vejo são as acusações, sem provas concretas, dos sem-terra ficarem maiores do que a realidade dos fatos.
O governo estadual está agindo corretamente ao cumprir, com energia e cautela, as ordens dos juízes. Aliás, já agira corretamente desde a primeira desocupação, no início do primeiro mandato do governo Lerner. Mas se intimidou, e Diolinda, recém-saída da prisão, foi recebida na Assembléia Legislativa, pelo presidente da Casa e pelo governador. As invasões, então, aumentaram.
Espero que essa defesa da lei e da ordem persista, a despeito das distorções e pressões da oposição - que, sem dúvida, erra ao subestimar a inteligência do povo paranaense.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Paraná em Curitiba





