Os regimes totalitários, até por sua origem e fundamento, fazem questão de rememorar os grandes feitos militares da História dos países que dominam, servindo-se deles como outro meio de reforço aos seus propósitos. Até por isto, quando eles caem, como aconteceu no Brasil, em 1985, surge uma espécie de refluxo. Associando os eventos históricos aos abusos totalitários, é quase natural que com a retomada da liberdade haja quem pretenda minimizar o passado, fugindo das celebrações que marcam a vida de qualquer povo.
Este tipo de reação, porém, não apenas é desaconselhável mas, também, pode ser perigoso. A identidade de um povo se constrói através de sua História. A rememoração dos grandes fatos, o louvor dos que lutaram em defesa de causas comuns, a homenagem pura aos que construíram alguma coisa e deixaram uma herança positiva constituem fatores fundamentais à própria construção da nacionalidade e da cidadania. E, neste momento da História do País quando, como talvez jamais tenha ocorrido antes, o povo brasileiro ganha cada vez maior consciência de seu próprio valor, elevando a tão necessária auto-estima nacional, é mais importante ainda que se celebre as datas mais marcantes do calendário histórico, dentre as quais, sem dúvida, o 7 de Setembro.
O Brasil é considerado um país de memória curta. Pior, é possível perceber ao longo de sua História uma ampla e intensa manipulação destinada a reduzir até a percepção do povo em relação à sua participação nos eventos que foram construindo a nacionalidade. Até hoje, nas escolas fundamentais, ainda há quem ensine que a descoberta do Brasil ocorreu por acaso, que a independência surgiu em função apenas da disposição de um homem, exatamente o príncipe que já governava o País, que a abolição foi fruto do sentimento de uma princesa, que a própria República surgiu como resultado da vontade de alguns militares. O povo parece dissociado de tudo, recebendo apenas tudo isto como presente do poder.
Em um quadro assim, muito explorado no recente período totalitário, não é de estranhar que o povo tenha pouca apreciação por sua própria História. Todavia, esta não é a verdade. E este povo que tomou em suas mãos o próprio destino, tornando-se primeiro o agente principal da luta contra a ditadura e, mais recentemente, o grande fator na luta pela mudança econômica, precisa tomar consciência mais plena de sua História para fazer dela, também, uma alavanca em busca de sua mais plena afirmação. Este processo ainda não se tornou mais forte. Todavia é importante e - na medida em que crescerem o entendimento relativo aos fatos históricos e a percepção sobre o valor e a participação dos brasileiros nas lutas que produziram os mais importantes fatos de sua vida - é certo que haverá, também, um crescimento mais significativo na própria força da nacionalidade.
A Independência, que se comemora hoje, não foi apenas o resultado do ‘grito do Ipiranga’. Não há dúvidas sobre a visão, a dedicação, o patriotismo de Pedro I. O processo, porém, foi mais amplo, envolveu muitos diretamente e todo um povo - inclusive em lutas por vários pontos do País - até que a independência política se consolidasse. E, mais importante ainda, a independência não se concluiu a 7 de setembro de 1822. Em verdade, começou ali. Aquele foi o primeiro dia de uma nova era, um compromisso inicial que foi assumido em nome de um povo. Continua até agora e persistirá no trabalho, na dedicação, no esforço e na coragem de um povo que, hoje, tem plena consciência de seu valor e de sua importância.

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