Outro dia dei uma aula na bem equipada Universidade Católica de Brasília. Lá um estudante me perguntou sobre a possibilidade de adiar as negociações do Brasil com os dirigentes da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) para dias mais tranquilos. A preocupação do aluno era que as crises nacionais poderiam interferir negativamente nas conversas de adesão ao tratado. Não me lembro de um tempo de paz por aqui. Na verdade, nas últimas décadas apanhamos das ditaduras e dos economistas. Uns e outros tornaram a vida extremamente difícil.
As crises estão se superpondo no Brasil. Não há mais tempo, nem espaço para que surjam novidades. Um ministro de Estado revelou, desconsolado, que deixou de aparecer no noticiário dos jornais. Ele teria informações positivas a transmitir. O povo quer sangue. O apagão, que interfere na vida de cada cidadão, é o assunto prioritário. Mas ainda há a possível cassação de Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda. Parece assunto antigo, mas ainda está pendente no altar no Senado, que concentrou para si as luzes dos holofotes.
A reabertura do rumoroso caso Chico Lopes e empréstimos aos bancos Marka e FonteCindam vai recolocar o Banco Central no centro do turbilhão. É uma caixa-preta, com administração profissional, que conseguiu a proeza de recolocar a Tereza Grossi na Diretoria de Fiscalização, embora ela esteja sendo investigada pelo Ministério Público.
Há crises para todos os gostos. E vem uma CPI por aí. Aquela que foi derrubada na Câmara pode renascer no Senado. Política se reduziu à atmosfera de delegacia de polícia. Trata-se de um eterno investigar. As controvérsias são longas. Não terminam. O estertor de Luiz Estevão durou mais de ano. O de Arruda e ACM já dura o semestre. O ano de 2001 não começou e, na verdade, já terminou. O apagão fez a sua parte, jogando o esforço nacional de recuperação econômica no lixo.
A questão Chico Lopes é assustadora. O acusado nega. Mas o acusador afirma que o presidente vendia informações privilegiadas para alguns bancos. Um deles, o Pactual, teve lucros surpreendentes. Acertou em todas as suas apostas arriscadas. A direção do estabelecimento naturalmente diz que tudo é mentira. Mas a história é verossímil. Situação semelhante ao depoimento de Regina Célia Borges. Ela é a parte mais fraca na confusão dos senadores e o painel eletrônico. Mas sua narrativa convenceu. E os dois confessaram a violação. Neste caso, o menor derrubou o maior.
A velocidade com que os fatos estão passando diante dos nossos olhos é impressionante. O presidente Fernando Henrique, antes dono de um discurso impecável, está engasgando ultimamente. Falou de improviso em solenidade no Palácio do Planalto e criticou a eleição nos Estados Unidos. Abriu conflito desnecessário com George W. Bush. Depois atribuiu ao PFL a responsabilidade pelo desastre energético. Confissão pública de que loteou o governo e que algumas áreas não eram de sua responsabilidade. Não precisava dizer uma coisa nem outra. Agregou mais crise onde já há crise.
Não há mais racionalidade. Nem é possível prever os dias tranquilos que o estudante pretende viver. A crise política esgarçou o tecido da aliança governista. Nada será como antes. O PMDB prepara o caminho para a candidatura Itamar Franco, que poderá eclipsar Ciro Gomes e Luiz Inácio Lula da Silva. E o candidato oficial, seja quem for, perde substância na medida em que o apagão passa a ser uma realidade intransponível. O racionamento não deu certo. Vai faltar luz. É preciso ter muito cuidado para que não termine agora também o ano de 2002. Crises costumam destruir reputações e engolir governos.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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