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m de leitura Atualizado em 26/05/2022, 08:48

A incompatibilidade do coaching espiritual com a fé cristã

A espiritualidade cristã não tem como função ser “confortadora”, mas ao contrário, “confrontadora” da realidade de si mesmo e do mundo

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de maio de 2022

Diácono Caio Matheus Caldeira da Silva
AUTOR autor do artigo

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Coaching é uma das palavras que mais está em moda no mercado profissional do Brasil e do Mundo. A palavra coaching é de origem inglesa, ela define uma atividade de desenvolvimento pessoal na qual o coach (instrutor) possibilita ao seu aluno/comprador (coachee) a evolucionar em algumas áreas da sua vida utilizando-se de diversos conhecimentos, técnicas e ferramentas provenientes dos mais diversos segmentos do saber: psicologia, neurociência, gestão de pessoas, administração, planejamento estratégico, linguagem, programação mental entre outras ramificações.

Hands of an unrecognizable woman in white cardigan praying Hands of an unrecognizable woman in white cardigan praying
Hands of an unrecognizable woman in white cardigan praying |  Foto: istock
 

Essa metodologia busca potencializar o aluno (cliente) – por meio de uma reprogramação mental e comportamental - para que ele consiga por si só evoluir em sua vida pessoal e conquistar grandes resultados seja qual for o contexto: pessoal, afetivo-relacional, social, profissional, financeiro e até mesmo, no nosso caso, o espiritual. Sendo assim, a prática do coaching é o meio pelo qual uma pessoa visualiza os seus pontos individuais (fracos e fortes), aumenta sua autoconfiança, quebra tabus limitantes e por si só atinge as suas metas de forma clara, objetiva e assertiva.

Aparentemente, olhando a sua definição, o coaching parece ser algo bom, ainda mais se aplicado à esfera cristã, que leva o homem ao sucesso e a felicidade por suas próprias capacidades. Sendo assim, qual o sentido de sustentarmos uma tese negativa – sua incompatibilidade - para a fé cristã e um contrassenso a teologia? Em sua Exortação Apostólica, Gaudete et Exsultate (n. 47-48), o papa Francisco alerta do mal histórico que o gnosticismo provocou na humanidade e na própria Igreja, sendo uma corrente filosófica e religiosa à qual exalta indevidamente o conhecimento como determinador da salvação e da santidade de uma pessoa.

Segundo Francisco essa corrente “[...] quer domesticar o mistério, tanto o mistério de Deus e da sua graça como o mistério da vida dos outros” (GE, 40-41). Entretanto, o papa alerta de um novo mal que se levanta na história da Igreja novamente: o gnosticismo hoje deu lugar ao pelagianismo; se o gnosticismo atribuía o poder de salvação à inteligência, o pelagianismo atual procura justificar a salvação e a santificação na própria vontade humana meramente ao esforço pessoal baseado em “regras de produtividade/assertividade”.

É este o erro que se encontra no coaching espiritual: pensar que por meio das nossas próprias forças, técnicas e estratégias se atinge o “nirvana espiritual”. E os testemunhos bíblicos diversamente relatam que não somos justificados apenas pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que sempre toma a iniciativa (Rm 9,16). Os discursos dos “spiritual coaches” enfatizam e sustentam erroneamente uma fé com menor dor/insucesso diferentemente daquela fé que os primeiros apóstolos/mártires da fé fizeram a experiência.

Assistimos a perversão da Teologia da Prosperidade que não é a realidade ontológica e nem a realidade da ortopráxis da Igreja realizada por Jesus de Nazaré, o encarnado e o ressuscitado. Perdemos um anúncio autêntico profético da Palavra de Deus, que passa pela via crucis, sem contar os interesses mercadológicos na fé. Para muitos o Evangelho tornou-se indolor.

A espiritualidade cristã não tem como função ser “confortadora”, mas ao contrário, “confrontadora” da realidade de si mesmo e do mundo (At 7,55-60; 12,1-5; 23,12-15). Ter um encontro com Jesus é sentir provocado para uma mudança radical de vida (metanoia), que exige uma resposta desafiadora, como podemos ver por exemplo no relato do jovem rico que não foi capaz de aceitar o convite para seguir Jesus porque isso lhe exigia renúncia e privações (Mt 19,16-22). Com efeito, “[...] não falamos para agradar aos homens, mas, sim, a Deus, que perscruta o nosso coração” (1Ts 24).

Não podemos mais conceber pastores que preguem para agradar/potencializar públicos, para ter assembleias massivas ou até mesmo para galgar os altos escalões hierárquicos eclesiásticos. Portanto, não é possível sustentar teologicamente e biblicamente a existência de coaching espiritual. A fé cristã não é centrada nas próprias potencialidades, mas em Cristo e no Espírito, como diz Santo Inácio de Loyola. A salvação é um dom gratuito da misericórdia de Deus que é dado a todos e não um esquema metodológico/programação mental que não necessita da graça divina.

Diácono Caio Matheus Caldeira da Silva, mestre e doutorando em Teologia Bíblica, PUC-PR/ campus Curitiba

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