Agora que todos os parlamentares federais se nivelaram, porque a corrupção generalizou-se, será mais difícil fazer distinção entre os envolvidos em escândalos específicos, de que o ano de 2006 foi pródigo. A desfaçatez de elevar os próprios salários de R$ 12,85 mil para R$ 24,5 mil a partir de fevereiro - uma auto-ajuda de 90,7% - além de ser uma agressão e um deboche ao povo é uma imprudência e um risco, porque não se sabe até onde a paciência pública aguentará. Se afirma-se que haverá redução de outros gastos do Congresso, então que eles sejam reduzidos, porque este é um dever, sem essa transferência do mesmo valor para o bolso de cada senador e deputado.
Pode ser que nada ocorra de imediato, até porque os movimentos populares estão desarticulados, mas está sendo adicionada uma forte dose de fermento à revolta contida da população. Porque, num momento em que o Governo quer subtrair a insignificância de R$ 8 do salário mínimo de R$ 375 - ora aprovado pela Comissão de Orçamento - a confraria do Congresso, com a anuência de todos ali dentro (menos os três do Psol), eleva seus ganhos para o dobro. Que não é só isto, porque cada parlamentar das duas Casas ainda disporá das polpudas verbas de gabinete, das verbas indenizatórias e do auxílio-moradia. Para não falar dos benefícios não contabilizados, do tipo desses que ocorreram nos últimos dois anos e que se converteram em escândalos.
O aumento foi decidido pelas mesas diretoras de Câmara e Senado e contou com o aval dos presidentes Aldo Rebelo e Renan Calheiros. O argumento é que os ministros do Supremo Tribunal Federal já ganham esse teto - exorbitante para uma nação onde a maioria dos trabalhadores ganha mal - e, como disse um senador, ''não somos menos que eles''. O exemplo, portanto, vem do poder mais alto da Justiça. (E agora a ministra-presidente do STF, Ellen Gracie, ainda quer o teto dos juízes supremos elevado para R$ 25,7 mil). Mas não é apenas este aumento isolado, porque haverá efeito cascata, que irá beneficiar também os deputados estaduais (que receberão R$ 18.375, e mais todas as verbas de praxe), e assanhará os vereadores.
É a farra pública chegando ao nível da baderna sem controle, que ocorre quando os convivas perdem totalmente a compostura. Os novos senadores, deputados federais e estaduais agradecem, porque, pela benesse dos pares, se juntarão aos atuais reeleitos. O povo já não acredita em senso de moralidade no âmbito dos poderes, porque depois dos escândalos recentes pensava-se que haveria uma temporada de calmaria. Corrupção não é apenas o roubo clássico da vida pública, mas assalto como este que agora ocorre. O significado desta palavra, conforme está no dicionário, é depravação, decomposição, putrefação. Por conclusão, pode-se agora afirmar, sem risco de erro e punição, que todos os parlamentares são corruptos iguais.

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