A improvável extinção dos ambulantes
A combatida e discutida presença dos vendedores ambulantes é universal e remonta à antiguidade, e em tempos ''mais recentes'' emoldura o quadro de Jesus expulsando os vendilhões do templo. Eram os mercadores que vendiam de tudo, ao redor do enorme Templo de Jerusalém, que reunia muita gente e por isso um ótimo local para negócios. Era um lugar de muita sujeira, porque havia também o mercado de animais vivos, e isto atormentava as autoridades. Em Nova York, a maior cidade do mundo e regida pelo rigoroso sistema das leis americanas, a polícia montada a cavalo atropela os vendedores de rua que infestam a Broadway e outros pontos. Assim na Europa, assim nas grandes e minúsculas cidades do Brasil.
Isto não justifica esse tipo de comércio irregular, que não paga impostos e prejudica os comerciantes estabelecidos e obrigados a uma série de encargos. Mas não se acredita que, desde que o homem se instalou na Terra até os dias atuais, e no futuro, essa atividade seja extinta. Em Londrina - conforme a última reportagem deste Jornal a respeito - esses vendedores invadem o centro e são encontráveis também nos bairros e nas mini-feiras que se realizam em locais diversos. As tradicionais feiras de hortaliças e outros produtos alimentares, que existem em Londrina há décadas, não deixam de ser um comércio ambulante, embora tenha regulamentação. Assim como as feiras-da-lua e outras formas de comércio não-fixo.
No caso de Londrina, a Prefeitura instalou o Camelódromo, em forma de shopping center, para tirar os ambulantes das praças e substituir o Paraguaizinho, como era conhecido o ponto próximo do Termina Urbano, e criou a central dos artesãos populares. Mas, um a um eles estão voltando às ruas e praças. Para o sistema legal e para os comerciantes estabelecidos, isto é um problema; para esses vendedores, é uma solução, porque lhes garante o sustento, num país de tanto desemprego e de tantos atentados contra o patrimônio alheio. Têm razão os comerciantes regularizados, mas a realidade brasileira dos desempregados também levanta as suas razões e as expõe à solução dos governantes e da sociedade.
Certamente é preferível um vendedor destes próximo da porta de uma loja do que eventualmente entrando nela de mão armada para assaltar. Se essa questão fosse tão fácil de resolver, as sociedades mais organizadas do mundo não teriam vendedores ambulantes, porque em toda a parte eles são combatidos mas voltam a surgir da noite para o dia, qual cogumelos. É chocante assistir aos cavalerianos de Nova York correndo atrás de vendedores de réplicas de relógios, dos carabineiros de Roma no encalço de imigrantes vendendo coisas de seus países e que chegam a atrair turistas; dos guardas da CMTU em Londrina em disparada para capturar vendedores de goiabas e guarda-chuvas. Os argumentos pró e contra contemplam as duas facções. Esse estado de coisas, misto de problema e solução, está exigindo mais a atenção dos estudiosos dos problemas sociais do que a presença da repressão.





