''Quando a guerra começa, a primeira vítima é a verdade''(Hiran Johnson, senador americano, em 1917). O jornalista inglês Phillip Knightley, repórter especial do ''Sunday Times'' por mais de vinte anos e autor de um dos mais importantes livros sobre cobertura de guerra, traz a tona uma questão que é parte de nossos dias atuais: a manipulação dos fatos e a guerra de propaganda dos governos envolvidos na disputa.
Ou seja, a verdade nem sempre é aquilo que ocupa as manchetes dos meios de comunicação em todo o mundo. E cita um exemplo: durante a Guerra do Golfo, numa reunião da Comissão de Direitos Humanos do Congresso dos EUA, uma menina do Kuwait foi apresentada aos congressistas pelo nome de ''Nayirah''. Ela relatou de forma brilhante, sufocando-se com as próprias lágrimas, que soldados iraquianos invadiram hospitais em seu país e mataram bebês arrancados de incubadoras atirando-os para cima.
As cenas do depoimento foram mostradas depois no Congresso, na votação sobre a intensificação do uso da força contra o Iraque. O presidente George Bush, pai, referiu-se à história dos bebês diversas vezes nas semanas seguintes e toda a imprensa alardeou aos quatro ventos na América sobre o mal que representava Saddam Hussein para a humanidade.
As imagens do depoimento foram exaustivamente veiculadas na televisão; os editoriais e articulistas de jornais e revistas opinaram sempre favoráveis às invasões, sem jamais questionar pela verdade. Passados dois anos após a guerra descobriram que ''Nayirah'' era filha do embaixador do Kuwait nos Estados Unidos e toda história fora armada por uma empresa de relações públicas, Hill and Knowlton, ao custo de US$ 10 milhões, financiados pelo governo kuwaitiano, que obviamente tinha interesses na intervenção dos Estados Unidos no conflito.
Mas daí isso já não tinha importância. Afinal, a guerra já havia acabado. Ninguém precisava justificar mais a morte de, segundo a Unicef, cerca de 500 mil crianças na região que foi palco do combate.
Hoje, ninguém em sã consciência seria capaz de defender a barbárie dos atos terroristas cometidos pelos supostos discípulos de Osama bin Laden. A imprensa divulgou, como não poderia ser diferente, as imagens do atentado ao Trade Center, que resultou na morte de milhares de inocentes, assim como toda a tragédia que se seguiu aos fatos.
No entanto, o papel da imprensa não pode se resumir a simplesmente mostrar os acontecimentos sem uma análise profunda das razões que levaram a esta situação. A reboque da comoção que abalou o mundo, o presidente George W. Bush foi à televisão para expor as mazelas do regime Taleban, a insanidade de alguns líderes muçulmanos que fazem da religião e da fé a matéria-prima de seus interesses, mas grande parte da imprensa não se preocupou em dizer por que este estopim chegou ao nível atual ou mesmo questionar a política externa no recém-eleito presidente norte-americano.
Basta lembrar que a prioridade atual do governo dos EUA - a luta antiterrorismo - deverá ter um orçamento já aprovado no valor de US$ 329 bilhões. Segundo declarações de um assessor do secretário de Defesa, qualquer novo pedido de verbas será aprovado - afinal, ''o céu é o limite''.
Enquanto isso, a Unicef alertou que pelo menos 100 mil crianças afegãs podem morrer de fome no inverno - não estão estimadas as vítimas diretas da guerra - caso não recebam os US$ 36 milhões para compra de alimentos e roupas, ou seja, 0,01% do orçamento aprovado para comprar armas e equipamentos em nome do terrorismo. Por si só, esses números explicam a razão de tanto ódio. Quanto custa essas vidas? Não importa. Porém o mais grave, segundo Knightley, é que 90% das vítimas de uma guerra são civis.
O papel da imprensa em qualquer circunstância, seja em tempo de guerra ou paz, é o compromisso com a verdade; é a obrigação de interrogar os fatos e seus personagens, através do jornalismo investigativo e real. Sobrepor interesses de grupos, de governantes ou poderosos de toda espécie é uma prática usual e não há como negar o contrário.
Estes sempre persuadiram a mídia a permanecer ao seu lado, porque assim fica mais fácil administrar a tigrada. Costuma-se dizer que história sempre é contada pelos vencedores; daí, não necessariamente expõe-se a verdade. Pois é justamente nestas circunstâncias que a imprensa assume um papel crucial. Afinal, nada explica uma carnificina onde, em nome da paz, tenta-se encontrar justificativas para matar.
- RENÉ RUSCHEL é jornalista e economista em Curitiba
[email protected]

mockup