A importante família
Educação não é uma preparação para a vida. Educação é a própria vida (John Dewey)
José Roberto Whitaker Penteado
Você pode não ser católico e, mesmo sendo, até achar demasiadamente conservadores os pronunciamentos mais recentes do papa João Paulo. Mas o que não se pode discutir é a importância do tema que S.S. escolheu para este encontro no Rio de Janeiro: a família.
A importância da família é tão óbvia que quase tudo que se fale ou escreva sobre o assunto tende a parecer pieguice. Mas, assim mesmo, correrei o risco de expor a minha árvore verde nessa verde floresta de informação, pois acabo de publicar um livro que - embora, à primeira vista pareça não ter nada a ver - tem tudo a ver com esse assunto: família.
Os filhos de Lobato - o imaginário infantil na ideologia do adulto (Dunya, 1997) é uma tentativa de determinar a influência da leitura dos livros infantis de Monteiro Lobato na formação do pensamento de várias gerações de brasileiros, em especial aqueles que têm hoje idades entre 45 e 65 anos. Depois que o livro saiu, têm-me aparecido muitos outros ‘‘filhos de Lobato’’, além dos que identifiquei e entrevistei para o texto - o que reforça a minha tese inicial.
Mas a parte mais teórica do livro trata justamente da questão: como é que se formam as idéias das pessoas? E, nesse sentido, há um acordo quase unânime, entre os especialistas, que isso começa a acontecer cedo, antes, muito antes da idade escolar. E a família desempenha o papel principal.
A partir de Rousseau - e culminando com os meticulosos estudos de Piaget - a criança deixou de ser considerada um ‘‘pequeno adulto’’ ignorante a quem se incutiam informações. Os conhecimentos sobre a evolução do eu, da inteligência e das estruturas mentais ilustraram, de forma enfática, a atuação pedagógica dos fatores sociais - sendo a família o número um - ao nível da criança. Foi demonstrada a importância dos anos pré-escolares para o desenvolvimento futuro das opiniões e atitudes. Se a formação das estruturas mentais e a descoberta do eu ocorrem entre o nascimento e os 5, 6 anos de idade, ao entrar para a escola, a criança já tem, estruturalmente, a sua personalidade formada. Mesmo a teoria psicoanalítica mais moderna sugere que a estrutura e o caráter básicos da personalidade são determinados, principalmente, durante os primeiros 5 anos de vida - o que é confirmado, quotidianamente, por professores e pedagogos. Um exemplo prático e próximo de cada um de nós são as ‘‘fotos de turma’’, que guardamos da escola. Ao observar uma foto dos primeiros anos de escola, basta um pequeno esforço de memória para retomar as principais características de personalidade dos colegas de então: este inteligente, vivo, outro caladão, dissimulado, aquele esportivo; o outro brigão, agressivo. Se não perdemos o contato com eles, reconhecemos o jornalista de hoje, o contador, o bancário, o médico, o desportista ou empresário...
Os seguidores de Freud, como Erik Erikson, acentuam que, após a infância, os aspectos sociais vão se sobrepor aos biológicos, no desenvolvimento humano. E Allport considera que a consciência do eu, como aquisição gradual dos primeiros 5 ou 6 anos de vida, é a coisa mais importante que ocorre na vida das pessoas.
É, assim, dentro da família - e não na escola ou no contrato com a sociedade - que se moldam a personalidade e o caráter das pessoas. Concebe-se, portanto, um extraordinário tipo de utopia: aquela em que, ao longo do tempo, as famílias se tornassem cada vez mais capazes de transmitir valores positivos aos seus filhos. Seres humanos assim educados tornar-se-iam cada vez melhores.
Os reformadores da sociedade, em especial os intuitivos, como Lobato - e Cervantes, antes dele, sabiam disso, como sabem a Igreja e o papa João Paulo. Há muito por fazer - e uma parte está sendo feita através dessa importante reunião, no nosso Rio de Janeiro.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing

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