A importância do setor florestal - Rubens Garlipp
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de setembro de 1997
Rubens Garlipp 
A década de 90 tem se caracterizado por significativas mudanças nos conceitos de desenvolvimento, nas relações comerciais, na internacionalização dos produtos, no mercado de trabalho e na interação da sociedade com o meio ambiente e com as atividades de produção.
O setor florestal foi rapidamente afetado pelo novo cenário e vem redefinindo a sua postura para se inserir no processo de globalização. Isto significa não apenas abertura das economias, mas, principalmente, a necessidade de racionalizar a obtenção de matérias primas, fabricação e distribuição de produtos, de modo a conferir competitividade no mercado consumidor.
O próprio ambiente interno das instituições do setor (empresas, organizações não governamentais e governo) sofre influências externas, representadas pelas oscilações nos custos dos insumos, nos preços dos produtos, pela adoção de novas tecnologias, pelas pressões da opinião pública, pela concorrência e pelo novo modelo desenvolvimentista. Em resposta a essas situações os administradores - públicos e privados - precisam buscar alternativas e reordenar suas políticas de atuação para enfrentar a realidade e as perspectivas do setor florestal brasileiro.
O início do reflorestamento em 1904 foi marcado com a introdução do eucalipto como matéria-prima destinada à produção de lenhas e dormentes no Estado de São Paulo e foi estendida para todo o Sudeste, Centro e Sul do Brasil, principalmente nas décadas de 60,70 e 80 por meio da política de incentivos fiscais. Hoje, o setor mantém cerca de 4,6 milhões de hectares de florestas plantadas de rápido crescimento, em regime de produção. Em termos ambientais, as florestas plantadas contribuem reduzindo a pressão sobre as nativas e colaboram para a limpeza o ar. Deste total, 62% são plantios de eucaliptos, 35% de pinus e 3% de outras espécies. Foram cortados no último ano 106 milhões de m3 de madeira oriunda de florestas plantadas equivalentes a, aproximadamente 400 mil hectares. São plantados cerca de 150 a 170 mil hectares por ano. É necessário, então, plantar mais hoje, para se colher mais no futuro. Estima-se que a demanda brasileira por madeira de florestas plantadas no ano 2010 será de 240 milhões m3 para suprir o mercado interno e assegurar o índice atual de participação brasileira no mercado internacional de produtos de base florestal.
O diagnóstico do mercado de base florestal evidencia o seu potencial como vetor de desenvolvimento sócio-econômico, pois além de ser gerador líquido de divisas, gera em torno de 700 mil empregos diretos e 2 milhões de indiretos. O país tem centenas de empresas florestais, 120 delas verticalizadas, ou seja, que plantam, colhem, processam, industrializam e comercializam produtos de reflorestamento. O faturamento anual deste setor gira em torno de US$ 15 a US$ 17 bilhões e ainda movimenta US$ 3,5 bilhões de dólares anuais em exportações e US$ 2, bilhões em impostos por ano.
As indústrias florestais adotam tecnologia de ponta, em respeito aos princípios de produção e do bom manejo ambiental. A maioria desenvolve pesquisas, treinamento de mão-de-obra e proteção dos recursos naturais presentes em seus ecossistemas. O aprimoramento tecnológico aliados às condições favoráveis de clima no Brasil possibilitam a obtenção de produtividade florestal muito acima da média de outros países. Aqui, por exemplo, atinge-se até 45m3 por hectare/ano em plantios com eucalipto, com a floresta podendo ser cortada a cada 7 anos de idade, durante um ciclo de 14 ou 21 anos. Nos países nórdicos, a média é de 4 m3 por hectare/ano e a floresta tem corte final, no mínimo aos, 80 anos de idade.
A criatividade e a pesquisa levam o setor a seguir as tendências do mercado partindo para as florestas de múltiplos usos, que produzem os derivados de madeira como os painéis, os pallets, a madeira serrada e os móveis oriundos de florestas plantadas.
Com todo esse potencial produtivo, a participação no mercado internacional é pequena: 2%. O Brasil precisa de um programa estratégico de longo prazo, com suporte financeiro para otimizar os benefícios ambientais, sociais, econômicos e mercadológico dessa atividade.
O setor florestal brasileiro apresenta variados segmentos e produtos, modos de produção e graus de capitalização, que ocasionam a necessidade de se ter mecanismos de apoio e financiamentos de acordo com cada situação. É urgente que o governo e legisladores reflitam sobre a importância da atividade para o País. A disponibilidade de mão-de-obra, extensão territorial, clima favorável, tecnologia existente e mercado emergente de novos produtos conferem vantagens comparativas de modo a torná-lo efetivamente uma potência florestal. As florestas naturais, também, além da produção madeireira, podem sustentar indústrias farmacêuticas, de recreação, de turismo e contribuir para proteger outros recursos naturais - bióticos e abióticos. O Brasil ainda é, felizmente, um dos poucos países do mundo que podem optar pela atividade florestal como meio de desenvolvimento sem competir com a agricultura e pecuária.
- RUBENS GARLIPP é engenheiro agrônomo e superintendente da Sociedade Brasileira de Silvicultura


