A importância de participar e decidir - Ilário Zarembski
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de junho de 1998
Ilário Zarembski 
Podemos até não gostar de política e, com muito mais razão, nem da forma como ela está sendo feita. Mas é dela que praticamente depende toda nossa vida. Se não fazemos política nós mesmos, alguém faz por nós. Temos muito o que fazer ainda, ou quase tudo, para que a política seja feita de acordo com seu significado verdadeiro. Ou seja, que a maioria decida com consciência os destinos do País, Estado ou Município. A realidade que nos cerca não se fez por acaso, mas é resultado de um processo político econômico que trouxe vantagens para uns poucos em detrimento da maioria carente de tudo.
Estamos, é certo, numa sociedade carente do pão material, do emprego, da moradia, da saúde, da educação e até do lazer. Mas carente também de beleza, beleza do entendimento entre os seres humanos, da solidariedade, do carinho, do afeto e da ternura. A competição, a rivalidade, o individualismo e a busca desenfreada do lucro e do ter tomaram conta do convívio humano. Não existe graça, despojamento de si, abnegação, humanidade, transparência no ser e no agir. Falta confiança no outro, amizade, prioridade ao homem faminto, sem esperança... Já não se crê no próximo nem em si mesmo, os ideais se perdem, não se espera quase nada e nem se luta por algo nobre e justo.
O modelo da sociedade feito para a minoria despe a população do que ela tem conquistado durante anos e tira dela também o sonho e a utopia da igualdade humana, numa sociedade boa para todos e com qualidade de vida. Tudo ficou descartado e obsoleto, inclusive sonhar e ser sujeito dos seus próprios destinos. Estamos longe de sermos nós mesmos, de pensarmos por nós mesmos, de decidirmos o agora e o depois e de nos encontramos com o extraordinário que se aproxima quando saímos ao seu encontro. É preciso sair ao encontro de algo novo e diferente para que algo novo e diferente possa ser avistado ou que algo venha ao nosso encontro, como nos ensina o filósofo Martin Heidegger.
O momento não é para a indiferença, o conformismo ou a resignação, porque isto seria o fim. O momento é de indignação e de volta sobre nós mesmos e sobre nossa situação concreta e objetiva e sobre o que devemos ser. É hora de tirar a máscara imposta pela sociedade do aparente, do faz de conta e da suposição. Não existe concordância entre o que é realidade do nosso mundo e o que sabemos dele e muito menos entre o que estamos sendo e nosso ideal maior de ser gente.
Trata-se de que, mais uma vez, o homem se perdeu. Porque não é coisa nova nem acidental. O homem se perdeu muitas vezes ao longo da história - e ainda mais: é constitutivo do homem, diferentemente de todos os demais seres, o ser capaz de perder-se, de se perder na selva da existência, dentro de si mesmo e, graças a essa outra sensação de perda, re-operar energicamente para voltar a encontrar-se. A capacidade e o desgosto de sentir-se perdido são o seu trágico destino e seu ilustre privilégio, dizia Ortega y Gasset. Nosso privilégio é a capacidade que temos de nos vermos perdidos, para daí empreendermos o vôo em busca de nós mesmos e da sociedade ideal.
O momento histórico de nossa existência como indivíduos e como seres políticos que somos é de assumirmos os destinos da vida em sociedade, resgatando o sentido e a importância da política. A política precisa tornar-se um instrumento de construção da vida e da cidadania. É preciso estimular a participação popular, ensinar cidadania e daí gerar poder alternativo contra o poder tirano e arbitrário. Devemos trabalhar para fazer com que a política esteja acima dos interesses particulares e o poder seja rotativo, onde haja partidos políticos com ideologia definida e o Brasil, que já é uma terra prometida, possa canalizar o leite e o mel à mesa de todos.
Fazer política é participar, abandonar o costume de colocar a culpa pelos problemas só nos outros, nos políticos e nos governos, mesmo que a culpa recaia sobre eles, porque fomos nós que os colocamos onde estão. Fazer política é conhecer o lugar onde se vive, é saber como funcionar e como está organizada a nossa sociedade. Fazer política é escolher candidatos, sim, mas, entre eles, os que tenham compromisso com a população e suas prioridades e acompanhar o mandato para que ele seja resultante da participação política dos segmentos organizados das classes excluídas.
Não existe outro caminho que não seja aquele que estamos construindo a partir da formação da consciência dos cidadãos. A consciência brota do diálogo, do debate e da participação, provocando gradativamente atitudes e opções políticas alternativas. Paulo Freire, um dos maiores pedagogos da história, afirma categoricamente que melhor forma de pensar certo é pensar a nossa realidade. Precisamos nos habituar a pensar e a pensar o nosso modo de estar no mundo. Como diz o grande professor, somos seres de raízes espaço-temporais, vivendo num determinado momento histórico e num espaço concreto, que revela temas que precisam ser captados, assumidos e realizados.
E qual é o tema que a sensibilidade humana precisa captar e assumir? Não é o tema do valor do ser humano, jogado no intempérie, desprotegido e descartável pela indiferença dos que se apossam de tudo e se acham no direito de dizer que os outros têm de ser? Todos nós, juntos, homens e mulheres, somos convidados pela própria realidade, que grita forte, a assumirmos nossa história. A decisão é de vida ou morte. Não se pode esperar. A política se faz pela participação, com erros e acertos. Já erramos muito acreditando no alheio, mas são os erros que ensinam a crer em nós mesmos, na união dos despossuídos e das oposições, dos sem nada e sem poder, mas com a arma do voto e da dignidade. O piolho é que vai pela cabeça dos outros.
O participar e o decidir são as duas palavras fortes na política. Participar e decidir sobre a forma de estar no mundo, sobre a educação e a saúde, o emprego e o salário, as taxas e os impostos, as prioridades e os investimentos e acima de tudo sobre as mudanças urgentes em favor da maioria desprotegida e faminta. A esperança de uma sociedade justa, baseada no valor do ser humano, está na consciência e na organização dos excluídos. Organizar um Brasil para todos é extremamente fácil porque já temos o principal - os bens materiais, a riqueza. Só falta a beleza, a opção pela maioria, nossa cultura e a igualdade social. Tudo isso é fundamentalmente uma decisão política.


