A importância da Universidade
Antes de comentar sobre a greve que se prolonga há mais de 120 dias em universidades paranaenses, gostaria de recordar as funções essenciais que caracterizam a instituição universitária para que fique claro sua importância. São elas, a criação e a transmissão do conhecimento, que a princípio deveriam se complementar.
Acontece, porém, que em todo o mundo poucas universidades possuem a capacidade de criar conhecimento. A maioria transmite e mal o conhecimento que, como se sabe, não é apenas atual mas advém de um longo processo anterior de descobertas e invenções de que foram capazes as mentes privilegiadas que nos legaram o que hoje aperfeiçoamos.
As universidades que geram conhecimento, sendo por isso de fundamental importância para a humanidade, estão em sua maioria nos Estados Unidos e em outros países do Primeiro Mundo. As periféricas, que apenas transmitem conhecimento, situam-se no Terceiro Mundo onde as condições de ensino, pesquisa e extensão são precárias, o que gera o círculo vicioso da perpetuação do atraso.
A criação ou recriação do conhecimento (não há nada de novo, só é novo o que estava esquecido - Paul Bergier) significa acrescentar novos elos à cadeia do que já foi descoberto, experimentado, apreendido e comunicado. E compete à universidade renovar esta arte de domar o mundo a que chamamos de ciência, e essa chama do espírito que se irradia do humanismo.
Somente desse modo o saber se torna atualizado, possibilitando sua moderna aplicação, e tal não aconteceria se fossem apenas repetidas as fórmulas do passado. Mas aqui é preciso frisar que todo o esforço de criação ou recriação do conhecimento implica não apenas no domínio preciso de técnicas, metodologias ou dos importantes recursos materiais e financeiros, mas sobretudo do vôo da imaginação e da criatividade que injeta vitalidade no organismo universitário e permite o progresso social como um todo.
A universidade brasileira, com raras exceções, é pobre em geração de conhecimento, limitando-se a imitar algum modismo ou copiar conhecimento para transmiti-lo.
Na minha área, que abrange o curso de Ciências Sociais, citaria como ilustração do que aqui afirmo a ênfase dada ao pensamento de Karl Marx, não como estudo clássico da Sociologia, mas através de discursos ideológicos e da doutrinação, que não abrangem nem explicam transformações mundiais sofridas em décadas mais recentes, as quais incluem o fim do socialismo real e a afirmação da democracia liberal.
Outro obstáculo que enfrentam as universidades brasileiras, sobretudo as públicas, para que encontrem níveis de excelência desejáveis, reside na sua politização com acentuada característica de esquerda. Não se percebe nos meios acadêmicos que é preciso uma política para a universidade e não uma universidade para a política.
Nas universidades estaduais de Londrina, Maringá e Cascavel, a greve que se estende sem solução vai assumindo contornos nitidamente políticos. Em Londrina, de tanto se repetir, inclusive pela imprensa, certas opiniões, elas vão se parecendo cada vez mais com mantras. O mantra favorito refere-se à insensibilidade do governo estadual, em que pese o fato deste continuar a pagar o salário dos grevistas (quando estava como governador, o atual senador Roberto Requião descontou os dias parados numa greve havida na UEL e o movimento acabou como num passe de mágica). Pois bem, não vou repetir a crítica ao governo, não vou reafirmar que professores ganham mal, pois conheço essa realidade como professora; não sou contra greve como instrumento de reivindicação justa de direitos dos trabalhadores. Seria chover no molhado.
Mas algumas coisas me chamam atenção nesta longa greve. Entre outras, observo que a vida profissional de milhares de estudantes está sendo alterada negativamente com a perda de oportunidades profissionais de todos os tipos, mesmo que se conceda formar alguns a toque de caixa; no Hospital Universitário, segundo divulgado pela imprensa, já morreu gente por omissão de socorro; marginais fazem a festa no campus da UEL, cujo patrimônio sustentado com o dinheiro não do governo do Estado mas na verdade dos contribuintes, parece um cadáver deteriorado pelo lixo e pelo mato que tudo invade. Nesse sentido fica difícil falar-se em insensibilidade apenas do governo do Estado e daí pergunto: a quem interessa destruir a UEL nesse ano eleitoral, onde o quanto pior melhor funciona para abrir caminho para os salvadores da pátria? Afinal, tudo é política.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é professora em Londrina





